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Obra de Portinari é roubada de galeria em São Paulo
Felipe Werneck

"Preparando Enterro na Rede", óleo sobre madeira do pintor brasileiro Cândido Portinari (1903-1962), foi roubado da Galeria Thomas Cohn


Reprodução/
Preparando Enterro na Rede, óleo sobre madeira de 1,5 X 2,2 metros

São Paulo - Três homens roubaram a obra Preparando Enterro na Rede, óleo sobre madeira do pintor brasileiro Cândido Portinari (1903-1962), da Galeria Thomas Cohn, na Avenida Europa, zona sul de São Paulo, na manhã desta quinta-feira.

De acordo com a Secretaria de Segurança Pública, um rapaz entrou armado, rendeu a secretária do local e pediu o quadro. Outros dois, que estavam em um veículo Fiat Fiorino, ajudaram na retirada da moldura e levaram a obra. A secretária foi trancada em um banheiro e os assaltantes conseguiram fugir sem serem identificados. Além do quadro, que foi pintado em 1958 e tem 1,5 X 2,2 metros, os bandidos levaram o telefone celular da funcionária. O caso está registrado no 15.º Distrito Policial do Itaim.

O assaltante que invadiu a galeria pediu especificamente pela obra Preparando Enterro na Rede, que não estava exposta, o que indica que o roubo pode ter sido encomendado.


Pintura vale R$ 2,5 milhões
O valor de mercado do quadro de Candido Portinari roubado em São Paulo é R$ 2,5 milhões, de acordo com o diretor da Bolsa de Arte do Rio, Jones Bergamin. A avaliação foi confirmada pela diretora-técnica do Projeto Portinari, Christina Penna. "Das 5 mil obras de Portinari catalogadas, é uma das 300 mais importantes", disse ela.

"A comercialização é muito complicada, o quadro é enorme e todos sabem que foi roubado. Os ladrões não vão conseguir vendê-lo nunca. A palavra mais correta é seqüestro. Acho que eles vão pedir um resgate à galeria para não destruir a obra", declarou Bergamin.


Valor artístico da obra
A diretora da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Angela Âncora da Luz, que escreveu a dissertação Fabulação trágica na fase dos Retirantes sobre Candido Portinari, falou sobre a importância da obra: "As décadas de 40 e 50 foram muito fortes e representativas, principalmente de 1946 em diante, após a exposição na Galeria Charpentier, em Paris (a primeira do pintor em solo europeu)", disse ela.

"O quadro roubado tem a poética que o caracteriza: o espaço clássico, mas a forma moderna, trágica." De acordo com a professora, o quadro representa "a memória da época em que Portinari viveu em Brodósqui, do trabalho dos imigrantes na terra, um imaginário que nunca se apagou".

Antonio Candido Portinari nasceu em dia 30 de dezembro de 1903, numa fazenda de café, em Brodósqui, no interior de São Paulo. Aos 15 anos, foi para o Rio. Em 1961, o pintor sofreu diversas recaídas da doença que o atacara em 1954 - a intoxicação pelas tintas. Morreu em 6 de fevereiro de 1962. "Muitos colocam Portinari como um pintor social. Eu o vejo mais como um pintor trágico", disse a diretora.

Jornal Estadão
12/12/2005