"Ovo Frito" reaparece 11 anos depois,
na Austrália
Jotabê Medeiros
A metáfora do ovo estrelado é
usada por dois artistas plásticos, um
no Brasil e outro na Austrália, com tempo
e sentido diferentes

Heitor Hui/AE e AP/
O artista brasileiro Luis Gonzaga Rocha Leite
(à esq.), no Rio Tietê, e a obra
do australiano Jeremy Parnell ao lado dos banhistas
em Sydney
São Paulo - Separadas por 11 anos, duas
intervenções artísticas
mostram que, no mundo das idéias visuais,
o novo é muitas vezes tão simples
quanto um ovo.
Em dezembro de 1994, o artista plástico,
publicitário e empresário Luis
Gonzaga Rocha Leite, cansado do descaso para
com a poluição das águas
em São Paulo, imaginou um ousado ato
performático. Montou equipes de ação
e foi à luta nas primeiras horas da manhã,
distribuindo gigantescos “ovos fritos”
flutuantes pelos dois rios fétidos da
cidade, o Pinheiros e o Tietê, e mais
alguns pelo Lago do Ibirapuera.
Sua intenção era chamar a atenção
para o descaso com os rios, a água, o
meio-ambiente da grande cidade. Os ovos fritos
eram feitos de material plástico inflável
- na época, um deles foi até “fisgado”
com uma vara por um sem-teto, que levou o ovo
para casa para fazer um colchão improvisado.
Gonzaga foi da geração de Hélio
Oiticica e Lygia Clark.
Na segunda-feira, passados quase 11 anos redondos,
o artista plástico australiano Jeremy
Parnell parou a praia de Tamarama, em Sydney,
espalhando pelas areias ovos de fibra de vidro
e epóxi, na 9.ª edição
do evento anual Sculpture by the Sea - um comentário
de Parnell sobre a obsessão das pessoas
de fritarem a si mesmas no sol da praia. A coincidência
parece obviamente só coincidência,
algo casual, uma mesma idéia que ocorre
a dois artistas em duas épocas distintas.
"Se nós não fomos os primeiros
a colocar o ovo em pé, pelo menos fomos
os primeiros a colocar o ovo deitado",
divertiu-se ontem o brasileiro Luis Gonzaga,
que é antes de tudo um grande gozador.
Ele retirou-se há muitos anos da vida
nas galerias e grandes mostras, e vive um auto-exílio
num empreendimento para crianças, o Sítio
do Carroção, em Tatuí (interior
de SP).