NOTÍCIAS
 
"Mirabolante Miró", mostra do artista catalão em SP
Camila Molina

Instituto Tomie Ohtake expõe cerca de 200 gravuras feitas nas mais diversas técnicas, pertencentes ao acervo da Galerie Lelong de Paris


Reprodução/


São Paulo - Joan Miró (1893-1983), o mais surrealista dos surrealistas, como já definiu André Breton, o líder daquele movimento artístico. "Miró sempre foi livre, nunca aceitou regras. Entre suas grandes características estão a independência e a identidade inconfundível que conseguiu dar à sua obra", diz Fábio Magalhães, curador da mostra Mirabolante Miró, que será inaugurada nesta quarta-feira para convidados e na quinta-feira para o público no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.

Uma identidade inconfundível. Muita gente reconhece suas composições em que os traços pretos se colocam livres com as cores primárias (vermelho, azul e amarelo) e verde sobre a tela e o papel; ou figuras como que pertencentes a um mundo irreal habitam os limites do plano. Algumas vezes, em suas obras, Miró também imprimiu as palmas de suas mãos coloridas e por essas poucas descrições não é difícil lembrar que há quem facilmente diga que os trabalhos do catalão parecem "desenhos de criança". Na verdade, a sua poética é a do onírico - o caminho de liberdade que Miró escolheu.

Nessa mostra que agora chega a São Paulo, depois de ser apresentada no Santander Cultural, em Porto Alegre, estão especificamente obras gráficas realizadas pelo artistas nos últimos 20 anos de sua vida - mas vale aqui dizer que durante sua trajetória ele se dedicou a pinturas, esculturas e até mesmo tapeçaria. São cerca de 200 trabalhos entre gravuras feitas nas mais diversas técnicas (litografia, metal, ponta-seca, água-forte), pôsteres e ilustrações pertencentes ao acervo da Galerie Lelong de Paris - a seleção foi realizada em parceria com o diretor da galeria, Jean de Frémon. É a primeira vez que é exibida de forma abrangente, aqui no Brasil, a extraordinária obra gráfica de Joan Miró.

A exposição, com projeto cenográfico de Pedro Mendes da Rocha, ocupa as duas grandes salas do Instituto Tomie Ohtake. Já ao longe se destaca um painel com reproduções gigantescas de composições do catalão, que ligam os dois espaços expositivos - no verso, há uma extensa biografia do artista - chamando a atenção dos visitantes.


Gravuras em grandes formatos
Numa das salas estão concentradas as gravuras em grandes formatos, algumas tendo 1,60 m de comprimento. Na outra estão os conjuntos formados por trabalhos menores; uma extensa série de obras que trazem somente traços em preto; e as ilustrações de Miró para livros e textos, uma prática recorrente em sua trajetória. "Ele tinha forte relação com a poesia e empatia com os poetas, entre eles Paul Éluard e René Char", conta o curador. Seus desenhos não eram mera representação dos escritos.
Como se disse, em Mirabolante Miró (título criado pelo consultor Leonel Kaz), estão as obras realizadas a partir da década de 1960 e, por isso, são trabalhos que trazem a linguagem pela qual o artista é reconhecido mundialmente. Mas é importante lembrar que o catalão, nascido em Barcelona, passou por outros caminhos e dificuldades até definir sua poética.

Sonhador e disperso, seu pai fazia caçoada dele por causa de sua sensibilidade pelas cores - um dia, numa caça, comentou com ele que o céu era lilás e logo foi reprimido. Quando ainda adolescente, foi obrigado a trabalhar numa empresa de produtos químicos, mas se deprimiu de tal maneira que ficou doente. Foi o mote para a família consentir em deixá-lo se dedicar somente à arte.

Miró fez pinturas realistas - era preso ao detalhismo -, entrou em contato também com o cubismo antes de encontrar sua linguagem. "A França foi fundamental para seu salto, foi onde ele se colocou na modernidade", diz Magalhães. Nas idas e estadas em Paris, a partir de 1920 - mas ele nunca abandonou a Espanha -, conhece os dadaístas e surrealistas. Calado e reservado, a seu modo chegou à sua inconfundível poética de movimento, elementos gráficos e de grande colorista.

Mirabolante Miró. Instituto Tomie Ohtake. Av. Faria Lima, 201, São Paulo, telefone 2245-1900. 11h/20h (fecha 2.ª). Grátis. Até 6/2. Abertura quarta-feira, 20h, para convidados

Jornal Estadão
12/12/2005