Eduardo Magossi
Coleção reúne obras de
Rembrandt, Dürer, Sysley, Tarsila do Amaral,
Di Cavalcanti e de gravadores de cordel nordestinos

Divulgação/
O Abaporu, de Tarcila do Amaral (1890 –
1973), 1964, água forte e foto da atriz
francesa Sarah Bernhardt (Henriette Rosine Bernard,
1844 – 1923) em traje de Pierrot, de Nadar
(Gaspard–Félix Tournachon, 1820
– 1910) Fotografia
Olinda - Reunir obras significativas entre
as milhares de gravuras, pinturas, esculturas,
documentos, livros raros, e amostras de arte
popular reunidas durante 50 anos pelo colecionador
de arte e marchand pioneiro Giuseppe Baccaro
e delas construir uma exposição
representativa deste acervo foi o desafio imposto
pelo coordenador do Instituto Cultural Bandepe,
Carlos Trevi.
Idealizador do projeto, Trevi queria trazer
para a exposição não apenas
o Baccaro colecionador de arte ou o Baccaro
bibliófilo, mas revelar, através
de sua coleção, o espírito
inquieto deste marchand que abandonou uma carreira
de sucesso e galeria de arte em São Paulo
para realizar trabalhos sociais em Olinda, Pernambuco.
O resultado pode ser conferido na exposição
Coleção Giuseppe Baccaro - A arte
de ver o mundo, que reúne 270 obras,
dispostas em espaço nobre no Instituto
Cultural Bandepe, localizado no marco zero da
cidade de Recife. A mostra traça a história
da formação desta coleção
por meio da trajetória deste italiano,
professor de filosofia, que deixou a Itália
em busca de um sonho brasileiro. Em São
Paulo, trabalhou como tipógrafo, editor
de jornal da comunidade italiana e montou nos
anos 60 a galeria e casa de leilões Mirante
das Artes, em sociedade com o marchand italiano
Pietro Maria Bardi que, por sua vez, ajudou
Assis Chateaubriand a montar o Masp.
Baccaro tornou-se marchand de artistas que
estavam esquecidos nos anos 60 como Tarsila
do Amaral, Anita Malfatti e Ismael Nery, e fez
renascer o interesse pela arte brasileira. Assim,
ganhou escopo para iniciar sua coleção
em viagens pelo mundo onde adquiriu obras de
arte de todos os tempos, documentos históricos,
mapas, manuscritos, pinturas, gravuras e primeiras
edições de livros. Por outro lado,
também foi grande descobridor de talentos
na arte popular. Baccaro via igual talento nos
mestres gravadores europeus e no trabalho dos
humildes xilogravadores nordestinos de cordel,
e ensinou toda um geração de galeristas
a colocá-los lado a lado, democraticamente,
como fazia com as peças de sua coleção.
No final dos anos 60, decidiu transformar seu
sonho de democracia nas artes em realidade e
vendeu parte de sua coleção para
custear a Casa das Crianças de Olinda,
em Pernambuco. Mudou-se de mala e cuia para
lá, juntamente com sua coleção,
alojando-a em três sobrados conjugados
na Rua São Bento, na região central
de Olinda. Em seu interior, um labirinto formado
por esculturas, pinturas, mesas abarrotadas
com aquarelas, têmperas chinesas, estantes
com livros raros, como uma edição
dos Sermões do Padre Vieira, de 1679,
impresso em papel de linho. Nesta aparente confusão,
litografias de Sisley convivem com gravuras
de Dürer e Di Cavalcanti, uma água
forte da Abaporu, de Tarsila do Amaral, e muitos
documentos, mapas e cartas, entre elas uma missiva
de Sarah Bernard ao amante.
A exposição A Arte de Ver o Mundo
alinhava este aparente caos em cinco módulos:
Oriente, Europa, Mapas, Índios e Negros,
Publicações raras nacionais e
internacionais e Arte no Brasil. Para a curadora
Maria Lúcia Montes, a exposição
é uma homenagem a este homem que passou
toda sua vida buscando a grandeza do espírito
humano nas criações de arte que
reuniu em sua coleção e que descobriu
que a coisa mais importante e coerente que já
fez na vida foi a Casa das Crianças de
Olinda.
Coleção Giuseppe Baccaro - A
arte de ver o mundo. Abertura - 11 de agosto
para convidados. De 12 de agosto a 19 de setembro,
no Instituto Cultural Bandepe, Av. Rio Branco,
23, 2.º and., Recife, PE. Entrada franca