Adriana Del Ré
São Paulo - Um dos mais importantes
cartunistas brasileiros, Henrique de Souza Filho,
o Henfil, ganhou merecida retrospectiva de sua
obra na exposição intitulada Henfil
do Brasil, que já passou pelo Centro
Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio e de
Brasília, e chega neste sábado
à unidade paulistana, onde fica aberta
à visitação até
janeiro.
É a primeira grande retrospectiva dos
trabalhos do artista. "Na verdade, esta
é a primeira exposição
dele deste porte", explica Júlia
Peregrino, uma das curadoras da mostra. Até
hoje, a exposição foi visitada
por mais de 100 mil pessoas. Em São Paulo,
o público terá acesso a mais de
400 desenhos, livros, revistas e impressos,
garimpados em meio a um acervo de 15 mil originais
produzidos por Henfil e mantidos por seu filho,
Ivan Cosenza de Souza.
"Por causa da limitação
do espaço, foi difícil o processo
de seleção", conta Júlia,
que levou cerca de três meses na árdua
tarefa de escolher trabalhos significativos
do cartunista e ser coerente com uma exposição
que se propõe retrospectiva. Contou com
a colaboração do próprio
Ivan e do crítico de arte Paulo Sérgio
Duarte, que assina também a curadoria.
Segundo Júlia conta, criou-se dois critérios
no momento da seleção: um deles
diz respeito ao humor, à piada em si,
enquanto outro resvala sobre o traço
do artista. Queriam identificar e priorizar
os desenhos que se mantinham atuais, como ocorre
com grande parte da obra do cartunista. Atrairiam
assim para a exposição não
só contemporâneos de Henfil, mas
também gerações mais novas.
"Uma das dificuldades que tivemos foi
com relação às datas. Os
trabalhos não tinham datas nem apresentavam
referência de tempo." Para facilitar
a vida dos freqüentadores e botar as coisas
em ordem, a exposição foi distribuída
em seis blocos.
Um bloco foi reservado exclusivamente à
Turma da Caatinga, composta pelos saudosos personagens
Capitão Zeferino, Bode Orelana, Graúna,
Onça Glorinha e Grauninha, que personificavam
críticas contra a censura, a corrupção,
o machismo e a desigualdade social. Outro bloco
vem dedicado aos Fradinhos: os sarcásticos
Cumprido e o Baixim, que ganharam as páginas
de jornais americanos sob o nome de Mad Monks.
Um outro bloco agrupa os desenhos do personagem
Ubaldo, o Paranóico, criado em 1975 por
um Henfil embalado pelo vaivém de amigos
e conhecidos a interrogatórios no DOI-Codi.
O tema Outros Personagens compõe o quarto
bloco, dedicado aos personagens presentes nas
páginas de esporte, como o Urubu, Bacalhau,
Cri-cri e Gato Pingado, O Preto que Ri, Delegado
Flores, Zilda-Lib, Ovídio e Tamanduá.
Há ainda um bloco dedicado a Outros Desenhos
e um último, aos cartuns do Orelhão.
"São 170 trabalhos espalhados pelas
paredes e o restante pode ser manuseado pelo
visitante em 12 álbuns."
Paralelo à exposição,
o Programa Educativo do CCBB oferecerá
atividades relacionadas a ela, como visitas
monitoradas e a oficina Rabisco Falante, voltado
principalmente para grupos escolares e onde
a garotada poderá criar o próprio
personagem.
Para a curadora, ainda hoje, os especialistas
em arte não dão o devido valor
à criação dos cartunistas.
"Algumas pessoas acham que esse tipo de
desenho é uma arte menor, mas é
uma manifestação artística
como qualquer outra", defende ela. Vide
a importância conquistada por nomes como
o próprio Henfil (que traçava
ácidos registros do cotidiano, de cunho
político e, sobretudo, social) e seus
contemporâneos e amigos, Chico e Paulo
Caruso, Jaguar, Ziraldo, entre outros.
Catálogo
Os cartunistas Jaguar e Ziraldo, aliás,
deixaram suas impressões sobre o amigo
Henfil no catálogo da mostra, um belo
livro de capa-dura com 100 páginas, que
será vendido a R$ 45. Nele, escreveu
também o caricaturista e pesquisador
Cássio Loredano.
Sobre o estilo do amigo, Loredano tenta definir:
"A linha do Henfil era a coisa mais utilitária
do mundo. O desenho em si é nada, inexiste
a não ser como arrimo do recado; é
desagradável e magnético a um
só tempo. O que normalmente nos afastaria
suga-nos o olhar irresistivelmente para dentro
da página. E o resultado era a unidade
perfeita entre o enredo e o aspecto, resumindo-se
o recado final a isto: olhe aqui que feio."
Henfil do Brasil. Centro Cultural Banco do
Brasil. R. Álvares Penteado, 112, Centro,
São Paulo, fone (011) 3113-3651. 10h/21h
(fecha 2.ª). Grátis. Até
15/1. Abertura neste sábado, 15h.