Maria Hirszman
Além de ser um grande painel de obras
que abordam a sexualidade, a mostra do CCBB
abre espaço para uma dicussão
mais ampla do tema

/Divulgação
Mostra parte sobretudo de critérios formais
e estéticos
São Paulo - Sexo e arte andam juntos
desde o início dos tempos. Relacionam-se
com a idéia de deleite, físico
e emocional, com a noção de impulso
vital e a expressão consciente e inconsciente
dos desejos humanos. Talvez por isso tantos
artistas se dedicaram a produzir imagens explicitamente
eróticas ou sutilmente sensuais e tantos
colecionadores e curadores tenham buscado reunir
essas imagens em acervos que potencializam seus
significados individuais.
Foi aberta hoje, no Centro Cultural do Brasil
de São Paulo, uma seleção
de qualidade, por meio de mais de uma centena
de obras garimpadas no País e no exterior,
e a preocupação em fazê-lo
a partir de critérios precisos de escolha
e edição que sobrepassem a mera
alusão ao sexo. Certamente ele continua
sendo o tema central. O próprio título
da exposição, Erotica, designa
um conjunto de textos ou imagens que suscitam
ou induzem ao desejo sexual. Como o termo não
existe em português com essa conotação,
os organizadores optaram inclusive pela eliminação
do acento para sublinhar esse aspecto.
No entanto, a mostra parte sobretudo de critérios
formais e estéticos. "Trata-se de
uma exposição de arte; são
objetos artísticos vistos como estéticos
por nossa sociedade", explica o curador
Tadeu Chiarelli, mostrando assim que resistiu
à tentação de abrir outras
portas como as da psicanálise e antropologia
para abordar tema tão complexo.
O surrealismo, escola em que a questão
dos impulsos inconscientes e a sexualidade em
particular tiveram papel central, funciona como
ponto de partida. Questões caras aos
surrealistas como o automatismo psíquico
e a noção de "beleza convulsiva"
- quando a representação é
tomada como realidade, uma imagem funcionando
como índice de outra coisa - estão
fortemente presentes.
Exemplo claro desse procedimento é a
"coleção de vulvas"
de Franklin Cassaro, na verdade tampas dobradas
de vários tamanhos que remetem ao órgão
sexual feminino, ou a concha de mar usada como
objeto votivo por sociedades muito antigas e
que hoje pertence ao Museu de Arqueologia e
Etnologia da USP.
O gosto por uma certa vulgaridade desconcertante,
beirando o pornográfico, é outro
caminho presente, assim como os exemplos de
voyeurismo e relação narcísica
com a própria imagem. "Frente às
obras de arte, somos todos voyeurs, sendo que
o voyeur maior é sempre o próprio
artista, aquele que primeiro observa a imagem
que produz (enquanto ainda a produz), numa tentativa
quase sempre vã de posse/fusão
entre criador e criatura. Em qualquer segmento
de uma erotica está sempre presente o
erotismo que configura o ato de olhar",
avança o curador.
O tema do auto-retrato também remete
a uma dupla leitura, sexual e artística,
e encerra a exposição com grande
intensidade (reunindo trabalhos de artistas
como Eliseu Visconti, Emygdio de Barros e Luiz
Zerbini), revelando ao mesmo tempo o caráter
auto-erótico desse tipo de representação
e sua importância ao longo da história
da arte. "Muitos que já produziram
auto-retratos afirmam que são poucas
as relações eróticas tão
ou mais intensas do que o auto-erotismo implícito
nessa ação: tradicionalmente,
o espelho faz a intermediação
entre o olho que observa e a mão que
representa", conta Chiarelli.
Com 109 obras de diferentes origens, a mostra
reúne desde artistas ainda pouco conhecidos,
como o goiano Pitágoras, até estrelas
internacionais como Rodin, Picasso, Picabia
e Marquet. Há também lugar de
destaque para os grandes modernistas brasileiros
como Anita Malfatti, Vicente do Rego Monteiro
e Ismael Nery, este, sem dúvida, a grande
personalidade do evento.
Além desse grande painel visual, que
depois de São Paulo segue para o Rio
e Brasília, a mostra também se
torna ocasião para discutir de forma
mais ampla a questão da sexualidade.
Nessa etapa paulistana foi organizada uma série
de conferências nos meses de outubro e
dezembro com seis pesquisadores, entre eles
o próprio Chiarelli, Ulpiano Bezerra
de Menezes, Nicolau Sevcenko e José Miguel
Wisnik.
O modelo de conferências se repetirá
nas outras cidades e o resultado dessas palestras
poderá ser reunido futuramente numa publicação,
afirma a coordenadora da mostra, Maria Ignez
Mantovani Franco. Por enquanto será lançado
um catálogo, no dia 28 de novembro.
Erótica - Os Sentidos na Arte - Centro
Cultural Banco do Brasil. R. Álvares
Penteado, 112, Centro, 3131-3651. 10h/21h (fecha
2.ª). Grátis. Até 8/1. Abre
amanhã para o público