Centro Cultural dos Correios exibe "Arte
Américas"
Jotabê Medeiros e Camila
Molina
Começa neste sábado a grande
mostra de arquitetura nacional e internacional,
com curadoria de Pedro Cury e Gilberto Belleza

Monica Zarattini/AE
Espaço do arquiteto Vittorio Gregotti,
representante da Itália
São Paulo - Em sua 6.ª edição,
a Bienal Internacional de Arquitetura de São
Paulo (Bia) tem um tema simples: viver na cidade.
Com a pretensão de conceber uma exposição
didática, voltada não somente
para o público estritamente ligado à
área, os curadores Pedro Cury e Gilberto
Belleza escolheram um tema que pode englobar
tudo e, nesse sentido, apresentam uma Bienal
muito heterogênea. "Pensamos que
viver na cidade não implica somente a
idéia de morar, ou seja, de ter casa.
Há hospitais, praças, comércio...
Aqui há projetos de tudo: a cidade é
feita pelo conjunto de muitas construções",
diz Belleza.
Neste sábado, a exposição
estará pronta para receber seus convidados
e será aberta para o público no
domingo. Segundo os organizadores, a estimativa
é a de atrair mais de 200 mil pessoas.
Orçada em R$ 2 milhões, a 6.ª
Bia, realizada pelo Instituto de Arquitetos
do Brasil (IAB) e Fundação Bienal
de São Paulo, reúne obras de brasileiros
e estrangeiros escolhidos pela curadoria e 13
representações internacionais
(Argentina, Alemanha, África do Sul,
Áustria, China, Cingapura, EUA, França,
Holanda, Israel, México, Portugal e Suécia).
Destaques da arquitetura mundial estarão
reunidos no espaço climatizado, no terceiro
piso do prédio projetado por Niemeyer.
São exemplos as obras do designer e arquiteto
finlandês Alvar Aalto (1898-1976), representado
por projetos arquitetônicos e de mobiliário,
e os desenhos e gravuras originais do franco-suíço
Charles-Edouard Jeanneret, conhecido como Le
Corbusier (1887-1965).
Ao longo da exposição também
estarão presentes nomes de sucesso, como
o espanhol Alberto Campo Baeza, os americanos
Rafael Viñoly e Richard Meier e o italiano
Vittorio Gregotti, que tem no centro do terceiro
andar uma sala fechada com paredes internas
vermelhas onde estão nove de seus projetos
- seis deles na forma de grandes maquetes.
Com a intenção de tornar a Bienal
atrativa e didática, os curadores exigiram
que os projetos fossem apresentados em maquetes
ou protótipos. Para explorar o apelo
visual, muitos dos arquitetos (nacionais e internacionais)
fazem uso de fotografias, painéis eletrônicos
e projeções de vídeos.
Cada um dos expositores teve o privilégio
de criar seus espaços livremente, independentemente
do projeto expográfico da mostra, assinado
por Pedro Mendes da Rocha, filho de Paulo Mendes
da Rocha, um dos grandes nomes da arquitetura
nacional (Camila Molina).
As polêmicas que a arquitetura
suscita
As mostras internacionais sempre possibilitam
esse espaço de discussão. Há
assuntos candentes. Por exemplo: a exposição
da obra do americano Richard Meier (autor de
projetos como o Museu de Arte Contemporânea
de Barcelona, o Getty Center de Los Angeles
e a sede do Canal Plus da televisão francesa,
em Paris). Meier prepara-se para inaugurar,
no ano que vem, o primeiro edifício moderno
construído em Roma desde a 2ª Guerra
Mundial, o Ara Pacis Museum, num sítio
histórico datado de 9º a.C. Essa
obra criou um teatro de conflitos na capital
italiana, por conta de sua maciça intervenção
em território histórico.
Trabalho interessante e igualmente controverso
tem o uruguaio (radicado nos Estados Unidos
desde 1978) Rafael Viñoly. Sua proposta
para o Centro Cultural do World Trade Center
(duas torres metálicas, vazias, furando
o céu nova-iorquino) foi tão duramente
criticada que quase se esquece do resto do seu
trabalho, fantástico, como o Kimmel Center
da Filadélfia e o David L. Lawrence Convention
Center de Pittsburgh, Pensilvânia.
O espanhol Alberto Campo Baeza é menos
controverso e mais celebrado. Sua moderna Casa
de Blas, em Madri, tem fãs principalmente
entre arquitetos e já ilustrou diversas
publicações internacionais de
arquitetura. Também é dele o projeto
do edifício-sede da Caja General de Ahorros,
em Granada (ele venceu um concurso com 138 concorrentes
para fazer o projeto). (Jotabê Medeiros)
Os arquitetos brasileiros
A participação brasileira se concentra
no primeiro e no segundo piso do prédio
da Fundação Bienal de São
Paulo, mas há gente de todo o Brasil.
Nesta 6.ª Bia, os grandes homenageados
brasileiros são Carlos Barjas Millan
(1927-1964), Eduardo Kneese de Melo (1906-1994),
Oswaldo Correa Gonçalves, que morreu
há pouco, em 28 de agosto, e Ícaro
de Castro Mello (1913-1986).
Carlos Millan - Um dos nomes da arquitetura
moderna paulista, foi professor nas Faculdades
de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie (onde
se formou, em 1951) e da Universidade de São
Paulo. A exposição com obras e
desenhos de Millan, morto precocemente, foi
concebida pela professora-doutora da USP Mônica
Junqueira de Carvalho. De sua obra vale citar
a residência Fujiwara, de 1954, em São
Paulo, detalhada em várias pranchas de
desenhos.
Eduardo Kneese de Melo - Primeiro presidente
do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) em
São Paulo, entre 1943 e 1949. Na equipe
de Oscar Niemeyer, ao lado de outros profissionais
como Ulhoa Cavalcanti e Zenon Lotufo, Kneese
de Melo participou da execução
do projeto do Parque do Ibirapuera, inaugurado
em 1954. Trabalhou também na construção
de Brasília.
Ícaro de Castro Melo - Integrou com
Kneese a equipe de Niemeyer para a construção
do Parque do Ibirapuera. São dele o ginásio
do Ibirapuera, obra de 1952, e o estádio
Mané Garrincha, de Brasília, de
1972. Ícaro se dedicou ao planejamento
de centros de convivência e espaços
esportivos. Foi um dos coordenadores da 1.ª
Bienal Internacional de Arquitetura, em 1973
- o evento não tem periodicidade estável.
Dele, destacam-se os projetos para sedes do
Sesc/Senac na capital paulista.
Confira a lista de convidados - De São
Paulo estão Eduardo de Almeida, João
Carlos Cauduro e Ludovico Martino, Carlos Bratke,
Benno Perelmutter e Marciel Peinado, Rosa Kliass,
Décio Tozzi, Hector Vigliecca, Siegbert
Zanettini e Joan Villà. Além deles
participam Eduardo Índio da Costa, do
Rio; Joel Campolina, de Minas Gerais; Campelo
Costa, Nelson Serra e Neves e Aída Montenegro,
do Ceará; Luiz Forte Neto, do Paraná;
Vital Pessoa de Melo e Acácio Gil Borsoi,
de Pernambuco; e Mário Aloisio, de Alagoas.
"Há desde projetos sociais até
alguns riquíssimos, de grande porte",
diz o curador Gilberto Belleza sobre a heterogeneidade
dos trabalhos dos arquitetos.
Projetos sociais - Um dos trabalhos apresentados
é o Cor em Heliópolis, de Ruy
Ohtake, para a favela de Heliópolis,
em São Paulo. "É um trabalho
de melhoria, para mostrar que arquitetura não
é somente para a elite", diz o outro
curador da 6.ª Bia, Pedro Cury. Como diz
o título, o projeto consistiu em pintar
as fachadas de 278 casas da favela durante dez
meses.
Fotografias para entender a arquitetura
Outra iniciativa para tornar a Bienal mais interessante
foi incluir na exposição outras
maneiras de se ver e mostrar a arquitetura e
o tema do evento, Viver na Cidade. Uma delas
é a fotografia de um mestre, Cristiano
Mascaro. Ele exibe numa espécie de cubo
branco, montado logo no primeiro piso, a mostra
Brasil XYZ. Além de fotógrafo
há cerca de 30 anos, Mascaro é
arquiteto por formação e, dessa
maneira, pode-se dizer que tem um olhar especial
para o assunto. Em 2003 ele lançou uma
importante obra, o livro O Patrimônio
Construído - As 100 mais Belas Edificações
do Brasil(Editora Capivara) que, como diz o
título, apresenta construções
que datam de desde o século 16. Como
Mascaro definiu, "fazer fotos é
contar histórias e reinventar cidades".
6.ª Bienal Internacional de Arquitetura
de São Paulo. Fundação
Bienal. Av. Pedro Álvares Cabral s/n°,
Pq. do Ibirapuera, portão 3, São
Paulo, fone (011) 5574-5922. 12h/22h (6.ª
a dom., a partir das 10h; fecha 2.ª). R$
12 (grátis para crianças até
6 anos). Até 11/12. Abertura hoje(22)