Roberta Pennafort
Cerca de 30 das 150 fotografias datadas do
século 19 roubadas do acervo de obras
raras da Biblioteca Nacional foram encontradas
Rio de Janeiro - Cerca de 30 das 150 fotografias
de enorme valor histórico roubadas do
acervo de obras raras da Biblioteca Nacional,
datadas da segunda metade do século 19,
foram recuperadas por agentes federais com comerciantes
de antigüidades. Provavelmente, eles venderiam
o material a colecionadores.
A Polícia Federal acredita que o furto
foi permitido pela conivência de um ou
mais funcionários e por falhas no sistema
de segurança da instituição,
que é a oitava maior biblioteca do mundo
e abriga a mais importante coleção
de fotos antigas do Brasil.
O delegado Deuler Rocha, da Delegacia de Meio
Ambiente e Patrimônio Histórico
da PF, que investiga o caso, disse que "é
praticamente impossível" que o ladrão
tenha agido sem a colaboração
de alguém que trabalha na biblioteca,
uma vez que o acesso à sala onde ficavam
as fotos é restrito. O sumiço
se deu durante a greve dos servidores federais
da área cultural, que começou
em abril e terminou na semana passada.
Ontem de manhã, três equipes de
agentes da PF, munidos de mandados de busca
e apreensão expedidos pela Justiça
Federal, conseguiram localizar 20% das fotos,
em duas residências, nas zonas norte e
sul da cidade. Cinco pessoas foram conduzidas
à delegacia para prestar esclarecimentos,
mas nenhuma ficou presa. Todas poderão
ser autuadas por receptação de
material roubado.
As fotos são de profissionais como Marc
Ferrez, brasileiro que era fotógrafo
oficial da família real e fez imagens
de diversos pontos da então capital federal
e também do interior do País;
August Stahl, alemão que também
registrou o Rio, entre 1855 e 1860, além
de outros estados; Guilherme Liebenau, outro
alemão, que percorreu as cidades históricas
mineiras em 1855; e Benjamin Mullock, inglês
que fotografou Salvador em 1862. As de Stahl
têm relevância especial porque não
existem cópias. Os itens levados ainda
estão sendo levantados.
O valor de cada uma no mercado ilegal é
estimado em US$ 15 mil, de modo que o material
completo supera US$ 2 milhões. Teme-se
que, na ânsia de se livrar das provas
do crime, os ladrões destruam as peças.
A importância das fotos se deve ao fato
de eles fazerem parte de um conjunto doado por
dom Pedro II à nação, em
seu testamento. Ele pediu que à coleção
fosse dado o nome de sua mulher, a imperatriz
Teresa Cristina, para que os brasileiros não
se esquecessem dela.
As fotos, do tamanho de uma folha de papel
A4, ficavam em álbuns guardados num armário
climatizado e só podiam ser exibidas
em ocasiões especiais, como a chegada
de delegações estrangeiras, ou
por pesquisadores credenciados. Foi vista pela
última vez pelos técnicos três
meses atrás, antes do início da
greve. Não se sabe se foram retiradas
de uma só vez ou aos poucos.
O sumiço só foi percebido na
segunda-feira, por técnicos do setor
de iconografia. Eles manuseavam o material pela
primeira vez após a volta ao trabalho.