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Programe-se para os últimos dias da Bienal
Maria Hirszman
A 26.ª Bienal de São Paulo está
chegando ao fim. Só até domingo,
o público terá a chance de ver obras
de 135 artistas de 55 países

São Paulo - Um evento do porte da Bienal
de São Paulo sempre é um acontecimento
imperdível. As Bienais são também
uma ocasião extremamente interessante de
se fazer um balanço sobre a produção
contemporânea.
Neste caso, a linha mestra condutora associa
um tema amplo como a noção de arte
como terreno de liberdade ao resgate de princípios
relacionados à Escola de Frankfurt. Mas,
por trás dela, temos uma miscelânea
de poéticas, que vão de iniciativas
de grande impacto, como as megainstalações
da entrada, que se apresentam ao público
como se estivessem em vitrines de um grande shopping
center (vide o grande fusca colorido que roda
como um pião ou o tigre sobre o elefante),
até obras que lidam exatamente com a crítica
ao consumo e à falta de solidariedade no
mundo contemporâneo.
As opções são variadas,
com grandes momentos individuais e muitos desacertos.
Esta Bienal recoloca em pauta o debate sobre as
divisões entre categorias como a pintura,
o vídeo e a obra tridimensional.
A monumentalidade também não é
garantia de qualidade, apesar de os representantes
dos países com orçamentos mais generosos
para eventos do gênero, como a França
e a Inglaterra, estarem seguramente na lista das
melhores obras.
Alguns dos trabalhos mais "imponentes"
da mostra não resistem a poucos segundos
de observação. É o caso,
por exemplo, do chinês Cai Guo Qiang, tão
esperado com suas impactantes ações
com fogos de artifício e que acabou expondo
um enorme pássaro-avião em palha
trançada, todo espetado de instrumentos
cortantes, que sobrevoa a área central
da mostra deixando o visitante no máximo
intrigado.
Essa mesma obra sintetiza a dificuldade de convivência
num mesmo espaço expositivo de ações
individuais. Ao armar sua escultura voadora de
potentes ventiladores que, além de funcionarem
como turbinas de avião e movimentarem pequenas
fitas que "voam" nos ares, o artista
também criou um incômodo e desnecessário
ruído, que interfere, solapa de forma sorrateira
a relação do visitante com uma parcela
importante dos trabalhos (já que o barulho
vaza pelo vão central do prédio,
atingindo também o segundo andar). Não
se trata apenas de uma consequência inevitável
de obras que utilizam o som como matéria-prima.
Um exemplo de convivência mais pacífica
é o misterioso canto da representante portuguesa,
Vera Mantero, que não disputa com os vizinhos
e além do mais se justifica como elemento
central da obra. O tumulto causado pela obra de
Qiang só faz ampliar o efeito impressionante
do "sótão" criado pelo
inglês Mike Nelson no segundo andar do prédio.
Uma vez nele, parece que somos retirados do mundo,
que mergulhamos no clima tenso e fascinante digno
da melhor literatura britânica.
E entre suas principais vítimas estão
as pinturas da brasileira Beatriz Milhazes, as
fotos do norte-americano Alec Soth ou os desenhos
dos lituanos Mindaugas & Gintautas Lukosaitis,
um registro fiel e comovente da guerra, no caso
aquela travada pela resistência contra a
ocupação soviética há
meio século atrás.
Desenho - Mais do que a pintura - propalada como
uma das grandes linguagens colocadas em destaque
pela Bienal -, o desenho é que parece ressurgir
com intensidade nesta 26.ª edição.
O traço, o projeto arquitetônico
ou esboço de uma idéia ou momento,
comparece com força em trabalhos distintos
e de qualidade como os bordados do representante
de Noruega Hans Hamid Rasmussen ou do chileno
Eugenio Dittborn. Também se encaixam nesse
amplo e interessante grupo as maquetes do cubano
Carlos Garaicoa e o mural do brasileiro Paulo
Climachauska, que refaz com infindáveis
contas de subtração o desenho do
interior do pavilhão que o abriga.
Vídeo - A ala de vídeo também
reserva boas surpresas para quem tem algum tempo
a dedicar ao assunto, pois a quantidade de obras
reunidas nesse núcleo e as durações
um tanto longas. É recorrente essa questão
do tempo em trabalhos do gênero, já
que o desejo de escapar à lógica
narrativa e aos truques de edição
e montagem característicos do cinema leva
os vídeoartistas a darem ênfase ao
tempo real. O espectador fica dividido entre o
desejo de ver o trabalho por completo (muitas
vezes apresentado em looping e sem as informações
corretas de duração) e a frustração
de abandoná-lo pelo meio. Talvez não
por acaso os melhores trabalhos nesse segmento
lidem exatamente com essa questão, seja
tendo um impacto imediato com o espectador, como
a lírica, melancólica e absolutamente
poética videoinstalação sobre
o carnaval, intitulada Se Fosse Tudo sempre Assim,
realizada por Karim Aïnouz e Marcelo Gomes,
seja transformando-o em mote central.
Destaca-se neste último grupo a obra do
francês de origem armênia, Melik Ohanian,
que toma a pulso a questão do tempo na
arte visual e a transforma em tema de um dos mais
belos trabalhos em vídeo da mostra, uma
ação grandiosa que congrega imagens
potentes e uma interessante relação
sobre o acaso, sobre a relação mítica
do homem com o seu ambiente, com as forças
- naturais ou não - que o cercam.
26.ª Bienal de São Paulo. Pavilhão
da Bienal/Pq. do Ibirapuera. Av. Pedro Álvares
Cabral, s/n.º, portão 3, Ibirapuera,
5574-5922. 9h/ 22h (6ª, sáb. e dom.,
até 23h). Serviço de monitoria deve
ser solicitado com 3 dias de antecedência
pelo fax 5549-0230 ou pelo e-mail monitoria@bienalsaopaulo.org.br.
O local possui cadeiras de rodas disponíveis,
livraria, loja, tel. público e lanchonete.
Não é permitido ingresso com máquinas
fotográficas e filmadoras. Grátis.
Até domingo
Jornal Estadão
16/12/2004
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