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Paranóia, escândalo e arte. Há
100 anos, nascia Dalí
Antonio Gonçalves Filho
Em várias partes do mundo, é celebrado
hoje o centenário do "louco genial"
que a mídia reverenciava e os intelectuais
odiavam

Reprodução/
No Brasil, Dalí será lembrado na
TV paga, com a exibição de um documentário,
no canal GNT, sobre sua mulher Gala. A primeira
parte vai ao ar na quinta, às 22 horas
São Paulo - A russa Elena Gala, ex-mulher
do poeta Paul Eluard, não resistiu quando
Dalí pulou como um bárbaro e cobriu-se
de excrementos de cabra para conquistar seu coração,
nos anos 20 do século passado. Foi o início
de uma bela (para eles) história de amor.
Louca por dinheiro, Gala viu nessa excentricidade
uma indústria de dólares lhe acenando.
Não estava errada. Sem Gala, Salvador -
é provável - não teria sido
Dalí. Ela o ajudou a criar o personagem
que chocava burgueses escandalizáveis.
Estimulou-o, sobretudo, a forjar o "louco
genial" que a mídia reverenciava e
os intelectuais odiavam já nos anos 1930.
Foi mais ou menos por essa época que Dalí
desenvolveu o embrião de um método
de criação chamado "paranóico-crítico"
com uma pequena ajuda de seu amigo Jacques Lacan,
que há 70 anos escreveu uma tese chamada
Da Psicose nas suas Relações com
a Personalidade. Lacan não tem culpa (ou
tem?) por ter inspirado um paranóico, mas
certo é que Dalí reviu toda a história
da arte ocidental segundo uma perspectiva exclusivamente
pessoal e psicanalítica. Evocando claríssimas
recordações de infância, ele
só precisou delas para entender a sua e
a arte dos outros. E assim foi.
Madonna - O exemplo da tela Angelus, de Millet
é ilustrativo. Uma das obras mais reproduzidas
da história da arte, o quadro foi objeto
de um estudo fenomenológico que explica
por que a sexualidade doentia de Dalí o
aproximou de Gala e as razões de ambos
(Milllet e ela) dominarem toda a sua obra. Gala
foi seu modelo de madonna, da santa eleita para
adoração masoquista do pintor que,
impotente, teria conseguido o milagre da ereção
apenas com a russa. O autor da inconfidência
é seu colaborador e secretário Enrique
Sabater. Ele diz que o pai de Dalí o apavorou
de tal modo com o fantasma de doenças venéreas
que o adolescente passou a abominar as relações
sexuais, preferindo a masturbação.
Verdade ou não, o fato é que Gala
controlava não só a conta bancária
como as mãos do pintor, fazendo com que
elas se deslocassem exclusivamente para as telas,
que ficaram repletas de cenas de onanismo explícito.
Convertida em sua única musa, Gala sabia
se fazer indispensável, eclipsando, segundo
Sabater, todos os personagens que ousavam intervir
na relação dos dois, dos familiares
aos amigos de juventude, passando pelos mecenas
de Dalí. Gala, obviamente, conhecia o passado
do marido. A Espanha inteira sabia das relações
de Salvador Dalí com o poeta homossexual
Federico García Lorca, por meio da correspondência
(muita íntima) entre os amigos. Dalí
tinha 18 anos, Lorca, 24 , quando os dois se conheceram.
A "amizade particular" durou até
1936, quando o poeta, antifranquista, morreu assassinado
em Granada pelas tropas de Franco. Dalí,
monarquista, silenciou a respeito.
Freudiano - Adolescentes sem roupa também
aparecem com assiduidade nas telas do pintor,
talvez com maior freqüência do que
talvez pretendesse Dalí, revelando, acima
de tudo, sua admiração (algo incômoda)
por acadêmicos como Bouguererau e Meissonier.
É o lado kitsch do surrealismo de Dalí,
mas que explica a irresistível atração
que a classe média tem por essas figuras
"enigmáticas", que "desafiam"
o espectador com seus enigmas pseudo-freudianos
e um repertório paupérrimo de temas
recorrentes. Como em sua leitura antropofágica
do Angelus de Millet, também essa obra
"misteriosa" pode ser facilmente decodificada
como jogo algo infantil de um cabotino. O sonho
dominante de Dalí é canibal. Ele
está sempre devorando seus modelos, seja
Gala ou qualquer outro ser infeliz que habite
o sonho desse paranóico, perdido num mundo
de formigas, relógios moles e outras metamorfoses
primárias.
De qualquer modo, a influência de Dalí
não pode ser desprezada. O surrealismo
fez surgir grupos como o Fluxus. Provavelmente
não haveria a performance sem a experiência
surrealista. Finalmente, o mundo teria ficado
um pouco mais aborrecido sem os sonhos e as obsessões
de um espanhol que, fingindo-se de louco, afastou
o fantasma da loucura familiar (parentes próximos
cometeram suicídio acometidos de surtos
paranóicos). Num mundo em que soldados
americanos torturam iraquianos e fazem-se fotografar
como domadores de leões de circo ao lado
de seres humanos acuados, a figura "excêntrica"
de Dalí pareceria, hoje, absurda e tragicamente
normal. O mundo real suplantou as invencionices
dos surrealistas. É mais assustador que
os monstros criados pelos sonhos de um paranóico.
Jornal Estadão
14/05/2004
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