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Nuno Ramos traz matéria escura em óleo
e areia

São Paulo - O novo trabalho de Nuno Ramos exigiu
40 toneladas de areia negra e 500 litros de óleo queimado.
Dentro da Galeria Fortes Vilaça. Auxiliado por uma dezena
de ajudantes, trabalhando cerca de 15 horas por dia há dez
dias, o artista construiu três gigantescos reservatórios
para conter o óleo, o maior deles com dois metros e meio
de altura. Megalômana e ameaçadora como nunca, a obra
parece decidida a forçar ao limite suas tensões internas
e com o espectador. Luz Negra, nova individual que o artista paulistano
inaugurou hoje, é feita dessas gigantescas tumbas, monólitos
ancestrais que não fariam feio em uma paisagem metafísica
do italiano Giorgio de Chirico.
Como em outros trabalhos do artista, esses carregam uma terrível
contradição, pois a estrutura de areia, caso fosse
atingida pelo óleo, ruiria imediatamente, levada por uma
enxurrada de óleo. A única coisa que não
pode acontecer é entrar alguém aqui com uma mangueira,
brinca o artista.
O processo de autodestruição é parte integrante
do trabalho e escancara sua natureza precária e transitória.
Matéria viva, em transição, a areia parece
dissolver-se em óleo, ali dentro, num lento processo de erosão
a que não temos acesso. Dentro das caixas de areia, isolando-a
do líquido, há uma chapa de metal, escondida dos olhos
do público. Fora isso, não existe nenhuma estrutura
que sustente os escuros depósitos, nem vigas nem concreto.
A areia foi socada manualmente e a coisa toda se mantém por
pressão (técnica similar ao de uma casa de taipa de
pilão). As finas paredes (10 cm) são interrompidas
por recortes de vidro que deixam entrever o negro interior dos tanques.
O óleo pode ser visto tanto pelo topo do reservatório
(é só subir a escada que leva ao mezanino) como pelas
laterais das caixas, por meio de grandes vidros que remetem à
forma de escotilhas. É uma imagem poderosa. Faz lembrar aqueles
passeios de parque aquático em que o público fica
separado dos peixes e animais marinhos apenas por um vidro transparente.
Só que no mar morto de Nuno não há
luz, vida ou movimento, mas uma massa espessa e viscosa, pronta
a se livrar dos frágeis limites que a aprisionam e a nos
afogar na escuridão.
Com a obra pronta, pouco sabemos de seu processo de construção.
Numa operação entre o discreto e o elegante, o artista
esconde suas estruturas e o esforço exigido em sua construção.
Contudo, deixa propositalmente algumas pistas, como pequenas concessões
que, no fim, contam um pouco sobre suas origens. Os veios da madeira
deixaram suas marcas nas paredes de areia, vestígio do arcabouço
usado para erguê-las e lhes dar sustentação
como um impulso inicial, sopro que deu vida à obra
e depois, modestamente, retirou-se. Nuno é fascinado por
essa idéia de impressão, de marca indelével
que, pelo contato, uma matéria deixa em outra.
Diferente de criações do passado, como os Manorá
(vaselina e mármore), não há mais vazamentos
ou supurações líquidas. Luz Negra é
formada por peças contidas, de limites fortemente definidos.
Qual a forma natural da areia? Como ela gostaria de
estar no mundo? Um monte em forma de cone, claro, como num canteiro
de obras. É como se Nuno fizesse uma seção,
um recorte nesse monte, criando então paredes e empurrando-as
em direção a uma função precisa.
Há outra contradição aí: se de um lado
Nuno Ramos trabalha com as características mais íntimas
dos materiais deixando que mármore, vaselina, madeira,
terra, areia ou óleo se expressem e assumam riscos
por outro investe sobre eles com decisão, disposto a moldar
a matéria a seu modo. Eu nunca gostei de coisas jogadas.
Eu quero controlar, mas também deixar a matéria viver.
Nuno assume que está mais negro, solene, e isso parece incomodá-lo.
Tanto que resolveu expor também uma faceta menos sisuda,
mais festiva (sim, ela existe) de sua produção
recente. No mezanino da galeria estão quatro objetos-desenho
feitos de latão, acrílico, vaselina colorida e espelhos,
contraponto à racionalidade minimalista das obras embaixo.
Para mim, o interessante é justamente poder freqüentar
lugares muito distantes estilisticamente. Essa pode ser a minha
grande qualidade, mas também um grande perigo, diz
Nuno.
O vernissage marca a estréia do impressionante curta-metragem
Luz Negra, feito em parceria com o artista Eduardo Climachauska.
Em uma insólita região nos arredores de Sorocaba,
que no vídeo se aproxima assustadoramente de uma desolada
paisagem iraniana, eles fizeram cavar grandes buracos, onde enterraram
cinco caixas de som com cerca de dois metros de altura. A certa
altura, elas são acionadas e ouvem-se trechos do samba Juízo
Final, de Nelson Cavaquinho, que aliás também inspirou
Nuno ao batizar a exposição. No samba Luz Negra, o
sambista canta: A luz negra de um destino cruel ilumina o
teatro sem cor, trilha sonora ideal para o luto de Nuno Ramos.
Fonte: Jornal Estadão
18/09/2002
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