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Muros, postes, tapumes e até o chão como tela
Paula Santos - Especial para o JB

Você já teve a impressão de que um poste estava olhando para você? Ou de que um frade, na calçada, o observava? Ruas como Jardim Botânico, Vieira Souto e cantos do Centro, Humaitá e Leblon ganharam olhos e rostos. São desenhos, feitos com pincel e tinta, saídos da cabeça criativa de Mario Bogea, um carioca de 23 anos, morador de Ipanema e que no momento estuda para tentar uma vaga no curso de Educação Artistica na Uerj. Para ele, as pinturas espalhadas pelo Rio formam uma rede de comunicação, uma internet off-line, que o conecta aos moradores da cidade.

- Muita gente já me disse que encontrou nestas pinturas um pouco de diversão, no meio de tantas coisas caretas, frias e mortas.

Desde 2000, ele vem pintando muros, calçadas, postes e qualquer tipo de mobiliário urbano, com um estilo que o diferencia de outros grafiteiros. São perfis, de onde brotam linhas abstratas, sempre cercadas de olhos - uma espécie de assinatura, presente em todos os seus trabalhos. Ao lado, ele escreve versos de sua autoria (''O universo dança incessavelmente/ transpirando vida, amor e alegria'').

O traço de Marinho - seu nome artístico - está tão disseminado pela cidade que as pessoas já reconhecem o seu trabalho. ''É você que faz isso? Pô, me amarro na sua cultura!'', disse um morador do Vidigal, quando o viu pintando perto da favela. Orgulhoso, Marinho conta que recebe elogios de todo tipo de gente, de mendigos a playboys.

- Às vezes, também recebo olhares estranhos, de pessoas que não entendem o que estou fazendo, e vem me perguntar o significado daquilo.

As pinturas de Marinho são realmente cheias de simbolismos. Cada elemento carrega um significado. O olho é o mais recorrente:

- Ele simboliza uma consciência imortal do homem, que permanece mesmo depois que seu ego, representado pelo rosto de perfil, morre - explica o rapaz, que aos nove anos arriscou as primeiras pinturas na rua. Autodidata, sua única formação foram alguns meses de estudo na Escola de Artes Visuais do Parque Lage.

Em quatro anos de pintura nas ruas, Marinho teve poucos problemas. O maior sufôco foi ano passado, quando pintava perto do túnel Lagoa-Barra, na Zona Sul. Funcionários da CET-Rio reconheceram nele o autor das pinturas feitas no túnel, e o levaram para a delegacia.

- Fiquei lá um tempão, mas não acontecia nada. Então fui andando para perto da porta, abri devagar e saí correndo - lembra.

Marinho acha que não faz nada de errado.

- É como se a minha pintura fosse uma expressão espontânea do meio urbano. Para todos esses prédios, carros e ônibus que me agridem com todo esse concreto e essa poluição, eu dou de volta um beijo.

Marinho garante que não pinta casarões antigos e bem-cuidados. Anos atrás, fez uma pintura junto a um grafite do poeta de rua Gentileza, num viaduto próximo à rodoviária Novo Rio.

- Fiquei preocupado por ter interferido na arte do outro. Voltei e apaguei o meu.

Marinho sente que é seu direito interferir na cidade:

- Ninguém pediu minha autorização para colocar aquele prédio ali, ou se eu achei bonito aquele poste. Me impuseram isso tudo, e eu vou lá e me imponho também. Se vivemos numa sociedade de vandalismo, meu vandalismo não é vandalismo.

O historiador Paulo Knauss, professor do Departamento de História da UFF e pesquisador da história do grafite, explica que a prática faz parte da evolução do homem.

- O grafite, entendido como a inscrição livre, em qualquer lugar e de qualquer jeito, é o registro mais antigo da expressão humana. Antes do homem falar, já rabiscava paredes - afirma.

Segundo ele, o grafite tem a função de provocar a discussão sobre o respeito ao patrimônio público e privado e o sentido dos conceitos beleza e limpeza.

- Muitas pessoas acham que o grafite polui e uma placa de trânsito, por exemplo, não polui. Isso porque a placa é uma força de ordenação do espaço e está colocada num eixo simétrico com a rua e os postes, e o grafite é feito livremente.

Alguns moradores da Zona Sul já identificam o grafite como arte, diferenciando-o da pixação. Maria Luiza Villas-Boas é um exemplo:

- Eu gosto dos grafites no muro do Jockey. Fica alegre, além de ser uma arte do povo e fazer uma crítica social - afirma a engenheira de 37 anos, que mora em frente a um dos murais de Marinho, no Jardim Botânico.

Mas, durante a realização desta reportagem, uma senhora no Leblon mostrou que nem todos aprovam:

- Acho que isso é uma poluição - disse, antes de se afastar.

Paulo Knauss acha que o grafite está cada vez mais próximo da arte contemporânea.

- Ambos fazem um elogio à desarmonia. Keith Haring (artista e grafiteiro americano, cuja obra está em exposição no CCBB) foi um marco dessa proximidade nos EUA. Marinho é um dos que melhor representa isso no Rio.

JB Online
19/02/2004