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Um encontro com a arte moderna

Maria Hirszman

O Sapateiro de Brodósqui (1941) é uma das obras de Cândido Portinari na exposição

São Paulo - Logo na entrada da mostra Da Antropofagia a Brasília, por meio de uma pequena janela recortada no praticável que separa o visitante da mostra, é possível vislumbrar o Abaporu, talvez a mais célebre pintura brasileira depois de ter atingido preços recordes em leilão internacional, tendo ido enfeitar ainda mais a coleção do argentino Eduardo Costantini. No entanto, a tela de Tarsila do Amaral - símbolo máximo do movimento antropofágico liderado por Oswald de Andrade e que está pendurada na sala inaugural da mostra - é apenas um dos vários prazeres que o público terá ao percorrer as dez salas em que foi subdividido o salão social da Faap, por um discreto projeto museográfico assinado por Pedro Mendes da Rocha.

Mesclando surpresas e reencontros, o público acabará por concluir que ainda há muito para se conhecer sobre essas quatro décadas em que começou a ser cunhado o modelo de arte moderna, que se perpetua de maneira impressionante até nossos dias. Afinal, foi com a ruptura que ganhou corpo na década de 20 e consolidou-se em seguida, que a arte no Brasil conseguiu tornar-se mais auto-referente.

Conquistamos um grau de desenvolvimento formal capaz de assegurar uma idéia de identidade e continuidade nacionais. O que não quer dizer que tenhamos superado - como comprova a novela em torno do Abaporu - a necessidade de referências e referendos estrangeiros.

Bom, mas se Tarsila do Amaral tem um lugar de honra na abertura da exposição, isso não quer dizer que ela seja a grande prima-dona do evento. A força da pintura de Anita Malfatti, a escultura de Maria Martins e a modernidade de Lina Bo Bardi têm lugar de destaque garantido nessa exposição, que procura contemplar da maneira mais eqüitativa possível a produção de quase 150 artistas.

Evidentemente, algumas figuras têm primazia sobre outras e a primeira delas é Mário de Andrade. Como o curador da mostra Jorge Schwartz explica, não estão apenas lá representados o Mário escritor, romancista, folclorista, musicólogo e fotógrafo -, como seu espírito de desregionalização e cruzamento de várias linguagens orienta todo o espírito da exposição. Outro artista polivalente, Flávio de Carvalho, é também lembrado com destaque com uma sala especial.

Ícones - Por razões até de apresentação, as artes plásticas, a fotografia e a arquitetura têm uma certa primazia sobre as outras formas de expressão artística. É difícil imaginar que um documento como o programa original da Semana de 22, datilografado à máquina por Paulo Prado, rivalize em atenção com as encantadoras telas de Guignard, Pancetti, Ismael Nery, Lasar Segall e Portinari - para citar apenas alguns dos nossos ícones modernistas - ou mesmo com as fascinantes maquetes que foram realizadas especialmente para a exposição (em sua edição espanhola), em Veneza e que reconstroem importantes projetos, como o do prédio do Ministério da Educação no Rio.

Mas para os mais atentos, há na exposição um grande número de curiosidades documentais, como por exemplo um desenho feito pelo próprio Gilberto Freyre retratando uma casa-grande ou o cartaz da exposição feita por Tarsila na Rússia em 1931.

A literatura, até pelo fato de esta ser a área de atuação de Schwartz, professor de vanguardas latino-americanas na USP, tem presença importante. Dentre os autores, aquele que melhor pontua a mostra é João Cabral de Melo Neto, cujo enxugamento da linguagem se aproximaria do processo de simplificação da arte em direção ao abstracionismo.

Além disso, ele tem uma importante relação com a Espanha que financiou a mostra antes que se cogitasse da possibilidade de exibi-la no Brasil (o que só se tornou possível graças ao interesse posterior da Faap).

No caso do cinema, a dificuldade documental é ainda maior, já que nessa arte a modernidade é um pouco mais tardia. Mesmo assim há exemplares interessantes de cartazes de produções locais e um diálogo curioso entre It´s All True, de Orson Wells, e uma filmagem jornalística do enterro de Stephan Zweig, projetados na mesma parede. A música, a menos tangível das artes está presente em todo o espaço expositivo, graças a um trabalho especial de compilação de diferentes trabalhos do período, realizado por José Miguel Wisnik e que é utilizado como trilha sonora.

O encerramento fica, como diz o título, por conta de Brasília, responsável, aliás, por uma das curiosidades da mostra que traz não apenas o projeto que vimos se tornar realidade posteriormente - afinal, a capital só foi inaugurada em 1961, portanto fora do escopo da exposição -, como os outros cinco finalistas do concurso.

Serviço - Da Antropofagia a Brasília. De terça a sexta, das 10 às 21 horas; sábado, domingo e feriado, das 13 às 18 horas. Faap. Rua Alagoas, 903, tel. (11) 3662-1662. Até 2/3. Abertura sábado, às 17 horas, para convidados.

Fonte: Jornal Estadão
12/12/2002