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Nelson Leirner reinventa a arte
Maria Hirszman
Um Jesus Cristo com uma bala no peito, um jogo
do Corinthians, imagens conhecidas de Duchamp
e da Mona Lisa estão na exposição
1994+10, uma retrospectiva de dez anos de trabalho
do artista.

Monalisa Lins/AE
Obra de Nelson Leirner que faz parte da exposição
1994+10
São Paulo - A idéia era fazer uma
espécie de apanhado da obra de Nelson Leirner
nos últimos dez anos, dando ênfase
à diversidade de suportes. A mostra surgiu
do desejo de mostrar ao público como a
arte contemporânea transita com tranqüilidade
do desenho à instalação.
Ninguém melhor do que Leirner para representar
essa liberdade de ação na arte.
Um dos trabalhos inéditos - que o próprio
artista considera o melhor da mostra - é
uma singela homenagem a sua mãe, Felícia
Leirner, cujo centenário de nascimento
será celebrado este ano. Sobre um caminho
ascendente (formado por livros sobre a obra da
escultora) ele colocou um delicado trenzinho,
feito com o acabamento tosco dos trabalhos infantis.
Sobre os vagões, animais, anjinhos e outras
figuras singelas.
Com a série Flores Cor Carmim (48 desenhos
de flores em grafite em que se vê a mão
do artista), esse é dos poucos trabalhos
em que não há espaço para
a irreverência, a ironia política
de Leirner. "Ele não perde esse caráter
eminentemente crítico", afirma Agnaldo
Farias, curador da mostra. Curiosamente, foi também
Farias o curador da mostra de caráter retrospectivo
realizada por Nelson em 1994 - inaugurando o Paço
das Artes -, data que ajuda a compreender melhor
o título da exposição (1994+10).
Às vezes sua contundência assusta,
como no polêmico trabalho em que desenhou
falos e elementos de forte conotação
sexual sobre as fotos de crianças feitas
por Anne Geddes, evidenciando o apelo erótico
das imagens aparentemente pueris. O trabalho,
que está na mostra, lhe valeu muita dor
de cabeça e um processo, hoje arquivado.
"Acho que ela é que devia ser processada.
Ela, que usa as criancinhas, colocando-as sobre
botões fálicos de rosa, que é
pedófila e não eu", afirma
ele, associando essa falsa singeleza no trato
dos bebezinhos nus com os pais que exultam vendo
os filhos a dançar a Dança da Garrafa.
"Ninguém quer enxergar", diz.
Outro aspecto bastante presente em sua obra é
a questão da violência urbana. As
imagens de Jesus ou de São Sebastião
(referência à cidade do Rio de Janeiro
para onde se mudou há oito anos) perfurados
por balas perdidas surge aqui e ali nos trabalhos.
Leirner está permanentemente se reinventando,
propondo um jogo para si e para o público,
com ironia e sedução plástica
também. Em diálogo com Duchamp,
em símbolos como a Mona Lisa, ou ainda
recriando interessantes imagens da miscigenação
cultural, religiosa, visual brasileira (como em
O Dia em Que o Corinthians Foi Campeão,
cuja composição ficou inteiramente
a cargo dos montadores).
"Sou um jogador; fiz da arte um jogo, fiz
as minhas regras e as dei ao público",
define.
Além dos trabalhos de Leirner, a mostra
reúne também uma seleção
de obras de um grupo de artistas orientados por
ele no Rio - nos quais predomina o aspecto colecionador,
essa forma tão particular que o artista
tem de trabalhar com o acúmulo e sobreposição
de objetos do cotidiano. E um livro deve ser editado
em breve.
A exposição do instituto também
não é a única mostra do artista
na cidade.
Na terça-feira ele inaugura outra mostra
em sua galeria paulistana, a Brito Cimino, para
onde trouxe a biblioteca de seu ateliê,
contrapondo a fisicalidade dos objetos à
imagem idealizada da fotografia.
Serviço - De terça a domingo, das
11 às 10 horas. Instituto Tomie Ohtake.
Avenida Faria Lima, 201, tel.; 6844-1900. Até
11/7. Abertura hoje, às 20 horas.
Jornal Estadão
14/05/2004
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