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Livro traz a revolução cubana pelas
lentes de Korda
Luiz Zanin Oricchio
A coletânia Cuba por Korda reúne
fotos do mestre cubano que acompanhou Fidel Castro
e Che Guevara documentando a revolução
cubana
/Reprodução
No alto, a imagem mais famosa de Che, em fotografia
de Korda. Acima, oficial dorme durante visita
de Sartre a Cuba: retratos do cotidiano
São Paulo - Todo mundo conhece a foto
mais famosa de Alberto Korda - afinal a imagem
de Che Guevara com a boina, cabelos compridos
e olhar duro correu o mundo e virou o ícone
pop da rebeldia típica dos anos 60. Mas
Korda, foi mais do que o fotógrafo do Che;
foi um profissional completo, um dos grandes do
século, como Robert Capa ou Henri Cartier-Bresson.
Cuba por Korda (CosacNaify, 160 págs.,
R$ 69,50) traz uma bela amostra de sua trajetória
artística.
Com sua Leica, Korda documentou a fase heróica
da revolução cubana, da luta na
Sierra Maestra à entrada triunfal em Havana,
depois da queda de Fulgêncio Batista, e
testemunhou os primeiros passos de Che Guevara
e Fidel Castro no poder. Ele nunca rendia-se ao
tom oficial. Buscava o informal, o momento de
descontração, aquele em que a vida
pulsava sob a rigidez das relações
internacionais. Por exemplo, na visita de Sartre
e Simone de Beauvoir a Che Guevara, Korda flagra
um guarda adormecido, quepe puxado sobre o rosto
e charuto pendurado na boca.
As páginas passam e as fotos se alternam,
entre imagens do início da carreira (especialmente
de moda), cenas do cotidiano e da entrada dos
revolucionários em Havana. Vemos depois
Fidel com Hemingway, e o Che pescando, fumando,
jogando golfe. Assumindo com gosto o papel de
garoto-propaganda de uma revolução
que se queria jovial e descontraída. Se
as contradições já a roíam
no plano interno, esse era o seu cartão
de visitas, e Guevara, cabeludo, barbudo, belo
e carismático, o seu melhor modelo.
No dia em que foi flagrado por Korda para aquele
instantâneo histórico, ele estava
sobre um palanque antes do enterro das vítimas
de um atentado ao navio La Coubre, que trazia
uma carga de munições da Bélgica
a Havana. Korda fotografava Fidel, quando viu
Guevara. "De repente surgiu o Che. Seu olhar
me espantou. Num reflexo, bati duas vezes. Ele
se retirou e não tive tempo de fazer uma
terceira", diz. A foto mais só se
tornaria conhecida após a morte de Guevara,
em 1967, na Bolívia, quando o editor italiano
Giangiacomo Feltrinelli pediu uma boa foto do
Che e mandaram-lhe essa. Foi o italiano quem imprimiu
os primeiros milhares de pôsteres do Che
e os distribuiu pelo mundo. Diz-se que Korda não
recebeu um centavo em direitos pela imagem, que
está entre as mais conhecidas do século
20.
Para organizar o volume e escrever o texto que
acompanha as fotos, Alessandra Silvestre-Lévy
passou 16 semanas pesquisando, na Oficina de Assuntos
Históricos de Cuba, textos, jornais e revistas
de época; também colheu depoimentos
de pessoas que trabalharam com Korda. As fotos
foram pesquisadas entre mais de 20 mil negativos
deixados por Korda.
Depois de pronto o volume, Alessandra mostrou-o
a Fidel Castro. "O que mais me impressionou
foi sua memória, ele se recordava de fatos
ocorridos há mais de 40 anos quando foi
caçar javalis na antiga URSS em companhia
de Kruchev", disse ela ao Estado. Essas fotos
de caçada estão entre as inéditas.
Fidel disse que durante a caçada, viu uma
moita se mexendo. Fidel mirou, disparou e errou
o alvo. Sorte sua: assustado, Kruchev saiu de
trás da moita.
Cuba por Korda - Fotos de Alberto Korda. Textos
de Alessandra Silvestre-Lévy e Christophe
Loviny. 160 páginas. R$ 69,50. Lançamento
hoje, 19 horas. Fnac Pinheiros, Rua Pedroso de
Morais, 858, 4501-3000
Jornal Estadão
26/08/2004
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