Pequena
igreja de Piracicaba guarda obra de Volpi
Jotabê
Medeiros
Em
Piracicaba, interior do estado de São Paulo, uma
pequena igreja, construída nos anos 30, esconde a
maior obra do pintor modernista, feita quando jovem
Piracicaba,SP
- Pequena, solitária e delicada - e ainda assim firme
e imponente. A pequena capela encravada numa colina a 5
quilômetros da entrada de Piracicaba (a aproximadamente
140 quilômetros de São Paulo), guarda a maior
obra de Alfredo Volpi (1896-1988). São cerca de 600
metros quadrados de pintura, distribuídos entre o
teto, as paredes, a cúpula e as colunas da pequena
capela. Apesar disso, não consta do catálogo
da obra do pintor, não era citada nas entrevistas
do artista, tampouco é tombada pelo patrimônio
estadual e só é possível visitá-la
no último domingo do mês, quando os seus proprietários
permitem.
Desconhecida,
a Capela de São Pedro de Monte Alegre é a
réplica exata de uma igreja toscana, mandada construir
e ser decorada com afrescos de Volpi pelo mecenas usineiro
Pedro Morganti, nos anos 30. Foi inaugurada com o batismo
de uma das filhas de Morganti em 1937. É um visceral
retrato do artista quando jovem. Volpi, na época,
ainda não tinha o cacife de um dos mais importantes
artistas da segunda fase do modernismo brasileiro. Pintava
paredes no Cambuci, entre outros biscates. Viveu quase dois
anos na vila da Usina Monte Alegre para completar a obra.
Mas o artista já pertencia ao lendário Grupo
Santa Helena e carregou consigo Mário Zanini para
ajudá-lo no trabalho.
A
capela tem 22 bancos para os fiéis. Na abóbada
do teto (foto ao lado) maltratada pelo mel escorrido de
11 enxames de abelha que os bombeiros suaram para tirar,
há dois anos, pode-se ver quatro anjos loiros, dois
com vestes azuis e dois com vestes brancas.
Heresias
- Os detalhes são heresias modernas de Volpi para
com a tradição ornamental religiosa clássica.
É o anti-Giotto, já que seu flerte com a natureza
é simulado, quase zombeteiro. "Uma madona, o
que é?", dizia Volpi. "Uma mulher com uma
criança, e só", continuava. "As
primeiras tinham coroa depois até isso eliminei,
elas ficaram mais simples e belas."
Flores
e ramos do pintor na capelinha sugerem um parentesco com
o art nouveau, mas as cores são pré-publicitárias
pré-industriais. Valdemar Cordeiro o chamou de "o
santeiro cubista", o primeiro construtor de nossa estética
visual. "Por uma síntese miraculosa do popularesco
e do intelecto, de matemática e folclore, desperta
a plástica brasileira que descansava ainda nas vetustas
descobertas de Almeida Júnior, nas gratuitas variações
da emoção cromática e tátil."
Folclore
e matemática dissolvem-se na capela de Volpi. Os
apóstolos na cúpula estão acompanhados
por animais toscos, Marcos por um leão, Lucas por
um touro, e João por uma ave. Só Mateus tem
um anjo ao seu lado. Na parede do salão principal
da igreja há uma frase em latim: "Quadcumoue
Orave Rint In Loco Isto Et Exaudies In Loco Habitaculi Tui
In Coe Lo Et Cum Exaudieris, Propitius Eris" (a tradução
aproximada seria ´Quando entrares nesta igreja, faça
um pedido e ele será atendido´)."
Reforma
- O detalhe é que a capela, atualmente, não
pertence à igreja, mas aos empresários Marco
Antonio e Wilson Guidotti Júnior, irmãos que
possuem uma construtora e incorporadora imobiliária,
uma academia de ginástica e uma choperia em Piracicaba.
Esclarecidos, o arquiteto Marco Antonio e seu irmão
Wilson querem encontrar uma boa alma que os ajude a reformar
a capela, que está em esplêndido estado - à
exceção da cúpula, que requer restauro
e está hoje recoberta por uma lona amarela.
O
usineiro Pedro Morganti tinha interesse pela arte (é
um dos doadores de telas do Masp) e nostalgia da Itália.
A capela é uma réplica feita pelo engenheiro
Antonio Ambronte de uma igreja existente em Siena, a terra
natal de Pedro Morganti, que data aproximadamente do ano
1.100. Em busca de patrícios artistas, Morganti foi
dar com o pessoal do Grupo Santa Helena e optou por Alfredo
Volpi para a tarefa. Volpi trouxe consigo, entre outros,
Mario Zanini - ainda hoje se pode encontrar obras de Zanini
pelas propriedades da região.
Obra-mestra
- "Contam aqui que foi um dos empregados de Morganti
que pediu uma igreja para os imigrantes italianos e os trabalhadores
da usina rezarem", conta Marco Antonio Guidotti, atual
dono da capela. O usineiro não só concordou
como ainda arquitetou uma pequena obra-mestra. Mas veio
a decadência das usinas de açúcar e
os Morganti perderam as terras. O engenho está ruindo.
O grupo Silva Gordo comprou e revendeu a capela. "Ofereceram
para a igreja católica e para a uma igreja evangélica",
conta Guidotti. "Quase que vai para os evangélicos,
mas nós ficamos receosos que descaracterizassem as
pinturas e compramos."
Os
irmãos Guidotti ainda não sabem o que fazer
com a igreja. Pretendiam que fosse o portal da entrada de
um condomínio que estão abrindo nas redondezas.
Mas não deu certo. Também não têm
dinheiro para bancar o restauro da igreja sozinhos. Um dia,
o fotógrafo Bruno Giovanetti veio à região,
para um encontro da Associação Italiana, e
resolveu fazer um ensaio fotográfico no local. Mostrou
o material ao cineasta Ugo Giorgetti, que ficou encantado.
Giorgetti foi à capela e decidiu fazer um documentário
com a história da igrejinha.
"O
que me fascinou foi notar que o que sobrou ali foi o que
era aparentemente mais frágil, os afrescos, e a poderosa
usina praticamente desapareceu", diz Giorgetti. "Restou
só a arte daquele império", impressiona-se.
O filme tem o título provisório de Uma História
Toscana.
Somente
há dez anos a comunidade piracicabana reconheceu
a importância histórica da capela de São
Pedro de Monte Alegre. Em 30 de junho de 1991, a capela
foi tombada pelo Conselho Municipal de Defesa do Patrimonio
Artístico e Cultural de Piracicaba (Condepac).
Imigração
- Mais recentemente, o conselho tombou também a pequena
vila italiana do século 19 que abrigou os primeiros
imigrantes, a cerca de 200 metros da capela. Na Vila Heloísa,
nome do lugar, morou André Cruz, ex-zagueiro da seleção
brasileira e também ex-jogador do União Monte
Alegre Futebol Clube, time da região. "Isso
aqui é um pedaço de uma fotografia da imigração
italiana", diz Marco Antonio Guidotti.
A
Capela de São Pedro do Monte Alegre não foi
a única obra sacra de Volpi. Ele pintou um mural
na Capela do Cristo Operário, no Ipiranga, a pedido
de Frei João Batista. "Esse mural, as têmperas
do Cristo Operário, foi o Ciccillo Matarazzo que
pagou, ganhei 10 contos", contou o pintor já
nos anos 70. "E no mural não há religião
nele, apenas os elementos religiosos servem para compor
as pinturas. Não há religião nisso",
afirmou.
Só
um padre reza uma missa por semana na capela, o que mostra
algum desinteresse da Igreja pela sua pequena pérola
da colina. Mas nem sempre foi assim. Em 1954, o bispo diocesano,
preocupado em garantir o acesso ao seu rebanho, elevou a
capela a capelânia curada. Dizia assim d. Ernesto
de Paula em seu despacho: "Pelo que concedemos à
dita igreja pleno direito e faculdades para ter o sacrário
em que se conserva o santíssimo sacramento com o
necessário ornado e decência, com a lâmpada
acesa de dia e de noite."
Fonte:
Jornal Estadão
11/08/2001