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Artistas plásticos ocupam Vila Buarque
A partir de sábado, a megaexposição Gênio
do Lugar espalha por ruas e instituições do bairro
obras de 70 convidados
São Paulo - Segundo uma lenda da antiga Roma, todo canto
da cidade possuía um gênio, dono de um poder capaz
de trazer progresso ou desgraça à residência
ou ao empreendimento ali instalado. Era o Genius Loci, ou Gênio
do Lugar, símbolo da vocação única de
cada espaço, para quem os romanos ofereciam sacrifícios.
Inspirado por essa história, o curador e crítico
de arte Lorenzo Mammi, nascido em Roma, diretor do Centro Universitário
Maria Antonia (Ceuma), resolveu levar a Vila Buarque ao encontro
de seu destino: arte e cultura. Reuniu 70 artistas na megaexposição
Gênio do Lugar - Circuito Vila Buarque, que a partir de sábado
ocupa dezenas de ruas e instituições desse pedaço
da cidade historicamente espremido entre o caótico centro
e a abastada Higienópolis.
O bairro está encravado em um pequeno território,
repleto de colégios, faculdades, bibliotecas, entidades culturais
e sociais. "Essa exposição aposta em um talento
que a Vila Buarque historicamente possui. A metáfora do gênio
do lugar é essa: um espírito a ser despertado",
afirma Mammi. "A idéia é atingir pessoas que
tem certo interesse cultural, mas que agora vão topar com
obras pela rua e dentro das instituições pelas quais
passam cotidianamente."
Entre as dezenas de artistas convidados, há obras de Carlito
Carvalhosa, Elisa Bracher, Laura Vinci, Carmela Gross, Marcia Pastore
e Claudio Cretti. Elisa Bracher vai instalar uma de suas portentosas
esculturas de troncos de madeira ao lado do Minhocão, criando
um diálogo com a rigidez do concreto. Já Flávia
Sammarone se apropria do espaço real de uma borracharia do
bairro e transforma sua arquitetura com lustres e papel de parede.
Dos 70 nomes em exibição, mais da metade está
ligada à Faap, como alunos ou professores de artes plásticas,
sob coordenação do curador Marcos Moraes. Além
do próprio Ceuma, há trabalhos espalhados pelos principais
lugares na Vila Buarque, como Mackenzie, Faap, Escola de Sociologia
e Política e Aliança Francesa.
Apesar dos componentes utópico e romântico que emprestam
parte do charme ao Circuito Vila Buarque, Mammi não se ilude
e deixa claro que não é função da arte
resolver os problemas da cidade.
"Contudo, mesmo em São Paulo, um dos maiores desastres
urbanísticos do planeta, ainda é possível certa
fruição estética, nem que seja por meio de
uma visão trágica." Também há beleza
no caos, acredita Mammi.
O primeiro passo de seu projeto seria ultrapassar o "estado
de cegueira", em que, de tão mergulhados, não
conseguimos dimensionar a gravidade do problema. "Se por um
lado não podemos ser tão apocalípticos, também
nem tão conformistas. Antes de tudo, é preciso tomar
´consciência estética´ do desastre. E é
aí que entram as obras de arte, sua capacidade emancipatória
e de qualificar um espaço."
Uma das maiores qualidades de Gênio do Lugar é não
se restringir às intervenções urbanas, quase
sempre pontuais e provisórias, mas dar o pontapé inicial
para que as instituições sociais e educacionais de
São Paulo passem a olhar a arte contemporânea com mais
interesse.
É o caso da Biblioteca Monteiro Lobato, um dos pontos da
megaexposição. Lá, Marcia Pastore exibe esculturas
de gesso e fotografias baseadas em moldagem de corpos humanos. No
hall central da biblioteca, as peças atuam em diferentes
níveis de percepção: sugerem o deslocamento
de corpos no espaço e guardam uma "memória tridimensional"
dessa passagem. Marcia Pastore, usando mais de uma pessoa em seu
processo de construção, também trabalha com
o vazio deixado entre elas.
No jardim da biblioteca, Claudio Cretti expõe sua instalação
Sinuca de Bico, espécie de "armadilha para o olhar"
formada por 6 blocos de granito, com furos que simulam caçapas,
3 tacos de alumínio e 20 bolas espalhadas. "Trata-se
de um jogo apenas mental, pois não existe interação
física com o espectador", diz Cretti. "Cria-se
essa dinâmica da impossibilidade: caçapas, bolas e
tacos chamam para o jogo, mas ao mesmo tempo esse movimento é
interditado pela rigidez dos elementos, fixos ao chão."
Em uma seleção paralela, o curador Marcos Moraes,
diretor do Departamento de Artes Plásticas da Faap, coordenou
os trabalhos de 30 artistas plásticos ligados à universidade.
A maior parte deles optou por intervenções urbanas,
caso de Graziela Kunsch, Claudia Calabi e Maristela Cabello, entre
outros.
Serviço Gênio do Lugar - Circuito Vila Buarque. Abertura:
dia 27, às 10 h. Praça Rotary e dezenas de endereços
espalhados pelo bairro de Vila Buarque. Informações
pelo tel. 3255-5538
Fonte: Jornal Estadão
29/04/2002
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