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Distante do culto ao vazio, inglesa esculpe parceria entre vida e morte
Cassia Maria Rodrigues

Surpreende ao menos iniciado nas artes que as esculturas de Rachel Whiteread, expostas na galeria Serpentine de Londres, de alguma ou de outra forma não estejam ligadas à obsessão pelo vazio. São ainda recentes as memórias que endossam a preocupação desta britânica, vencedora, em 1993, do Turner Prize, o mais importante prêmio de artes da Gã-Bretanha, de ocupar com inutilidade crítica o espaço: há seis anos ela arranjou cem cadeiras, envolveu-as num molde e abarrotou de resina os limites entre o assento e o chão. Esperou, então, que o material resinoso secasse e retirou as cadeiras, desafiando a compreensão pública com a originalidade resultante do trabalho.

Com “House”, o monumental molde metálico revestido por gesso e concreto pulverizado, sugerindo a construção de uma casa da Inglaterra vitoriana, Rachel Whiteread não só levou para casa o Turner como ganhou reputação internacional. Suas novas esculturas, expostas até o fim de agosto na Serpentine, em Kensington Gardens — na primeira exposição individual de Whiteread numa galeria de arte em cinco anos — novamente a mantêm, no entanto, no centro das recorrentes discussões sobre a genialidade de sua obra, mas não representam o culto ao vazio.

Fama e controvérsia, aliás, sempre formaram o binômio-sustentáculo da carreira desta premiada escultora, cuja maior contribuição à polêmica certamente ainda provocaria cócegas de indignação no bigodinho autoritário de Hitler. É assinado por Rachel Whiteread o “Memorial Holocausto”, um mausoléu em forma de biblioteca, erguido na praça Judenplatz, em Viena, contendo centenas de livros de concreto. No início, a crítica local foi tão devastadora que o monumento quase acabou soterrado por reclamações de políticos. Foi salvo, contudo, graças à hesitação dos próprios. As eleições municipais motivaram a extrema direita de Viena a reconhecer a contribuição da escultora britânica à história do nazismo, o que a levou mais tarde a descrever a delicada questão como “cinco anos de puro inferno”.

De passagem pela Serpentine, o visitante se vê inicialmente impactado por uma perspectiva doméstica, com grande ênfase na ancestralidade. Trabalhando basicamente com gesso, isopor, fibras metálica e de vidro, borracha, madeira e fórmica, Rachel Whiteread buscou nos hábitos e costumes de seus ancestrais a inspiração para compor um ambiente em que tenta consolidar uma parceria — nem sempre duradoura — entre vida e morte.

Em uma segunda impressão, suas esculturas tornam-se mais perturbadoras. É assim quando ela coloca o observador diante da depressão — e a um passo da mortalidade — quando o convida a mergulhar na “Banheira negra” (“Black bath”), um enorme reservatório que mais se assemelha a um túmulo.

A visão doméstica, descontraidamente vitalícia, retorna com “Novels” (“Romances”) e “Upstairs” (“Em cima”). O amontoado de livros ordenados em estantes deterioradas convida aos prazeres que resistiram ao tempo. Da mesma forma, ao subir as escadas que levam ao “andar superior”, o observador provavelmente deverá experimentar a sensação juvenil de escalar algum fóssil gigantesco da era mesozóica. O “fôlego de vida” presente nas esculturas de Rachel Whiteread logo dá lugar ao “sopro da morte”, com seus trabalhos adquirindo ênfase lúgubre. É o caso de “Black books” (“Livros negros”), “Black bed” (“Cama negra”) ou “Wardrobe”, o armário cujas gavetas e estrutura esteticamente traduzem a intenção tumular.

— Todas as peças dão continuidade às investigações da artista sobre a forma, o material e o processo de suas esculturas — tenta explicar Julia Peyton, diretora da Serpentine.

Se a intenção foi chocar ou, mais uma vez, estabelecer a polêmica, Rachel Whiteread conseguiu sem grande esforço. E, desta vez, com inequívoca genialidade. A própria detesta falar sobre o significado de seu trabalho, perguntas recorrentes na imprensa britânica, que ela quase sempre sepulta, considerando-as intrusivas ou irrelevantes. A tais questionamentos a escultora quase sempre responde com um silêncio dignificante. Tanto como aquele que guiou para casa os visitantes da Serpentine, esforçando-se para não se deixar contagiar pelo criativo mau agouro contido neste novo estágio da arte de Whiteread.

Fonte: Jornal O Globo
01/08/2001