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MuBE expõe obras de Claude Viallat
Maria Hirszman
- Claude Viallat, um dos maiores representantes da pintura francesa
contemporânea, inaugura nesta terça-feira à noite uma ampla exposição
no Museu Brasileiro de Escultura (MuBE) mostrando, por meio de uma
seleção de quase 50 trabalhos realizados nos últimos cinco anos,
que continua fiel aos princípios do movimento Supports/Surfaces,
que ajudou a criar no fim da década de 60. Reafirmando a importância
da pintura numa época em que vigorava a idéia de que ela estava
morta, ou no mínimo agonizante, Viallat e seus companheiros ousaram
desafiar a hegemonia do minimalismo, e sobretudo do conceitualismo,
contrapondo a exploração sensual de elementos como a forma, a cor
e a matéria ao racionalismo dominante.
A íntima relação da pintura com a história e sua função narrativa
não têm espaço na obra de Viallat. Seu abstracionismo também não
tem nada de rigoroso, de geométrico. Partindo de uma mesma e repetitiva
forma, que há muito se tornou um elemento central de seu trabalho,
Viallat busca trazer à tona o que há de mais primitivo, o que há
de mais essencial na pintura.
"Não há nada premeditado no meu trabalho", diz ele, afirmando que
essa figura que repete quase que como uma assinatura, explorando
tanto a forma quanto a contraforma (espaços entre as figuras, que
funcionam como um campo negativo da imagem) é um elemento qualquer.
"Ele não tem nenhum interesse em si, a não ser que não é figurativo,
não é geométrico, não é simbólico ou decorativo."
Com relação a esse último adjetivo, pode-se alertar para o lado
extremamente sedutor da pintura de Viallat, que apesar - ou talvez
por causa - da ausência de outras referências, se impõe ao olhar
de maneira agradável e um tanto quanto lúdica. Mas segundo o artista,
o que lhe interessa não são padrões de decoração e regras sobre
como atrair e encantar o espectador, mas sim a própria sensualidade
da matéria, criada de maneira cotidiana e descompromissada.
O tecido, que na maioria das vezes traz consigo informações das
quais ele se apropria como uma determinada cor ou motivo impresso,
é seu ponto de partida. A técnica surge em função do material. "Todos
os acasos são bons", brinca o pintor, que já teve sua obra exposta
no Brasil em três outras ocasiões: na 16.ª Bienal de São Paulo,
numa exposição coletiva sobre o Supports/Surfaces realizada ano
passado no Museu de Arte Moderna de São Paulo e, mais recentemente,
numa mostra realizada no Paço Imperial, no Rio. Segundo Viallat,
essa busca da essência da pintura decorre de uma tentativa de repensar
a história dessa técnica e da constatação de que esse passado não
começava na renascença ou nas tradições ocidentais, mas remontava
à pré-história. "Decidimos reinvestir na pintura e reaprendê-la",
conta. Dentre os companheiros de jornada do Supports/Surfaces apenas
Daniel Dezeuze e Patrick Saytour parecem continuar trilhando o mesmo
caminho, mas muitos deles acabaram voltando à figuração.
Uma das imagens que mais encantam o pintor que se recusa "a contar
uma história" em seu trabalho é a do homem das cavernas que deixa
suas mãos e impressões registradas nas paredes das cavernas, estabelecendo
assim uma determinada partição do espaço físico. "Foi a partir desse
momento que a pintura pôde existir", afirma.
Mas nem só de pintura e bidimensionalidade é construída a obra
de Viallat. Ele também tem suas experiências com a escultura e muitas
vezes parece dar um corpo mais sólido e concreto à cor, que se transforma
em malhas vazadas ou em sedutores rolos de corda que parecem puro
pigmento. Infelizmente a mostra do MuBE não deverá reunir nenhuma
dessas obras, já que o artista preferiu explorar a amplidão do espaço
para mostrar suas pinturas em grandes dimensões.
Outras vezes, mesmo quando ainda se mantém na superfície chapada,
ele sai da pura bidimensionalidade, explorando os dois lados da
tela. Alguns dos trabalhos que expõe em São Paulo fazem esse jogo,
tirando a obra da visão monocêntrica da parede e jogando-a na integralidade
do espaço. Dessa forma, ele também provoca o espectador, que jamais
é capaz de ver a obra em sua integralidade, já que sempre haverá
um lado oculto, um registro que só está presente em nossa memória.
Serviço - Claude Viallat. De terça a domingo, das 10 às
17 horas. MuBE. Avenida Europa, 218, tel. 3081-8611. Até 30/9. Abertura
terça, às 20 horas
Fonte: Jornal Estadão
04/09/2001
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