NOTÍCIAS
 

Sem medo de olhar para o passado presente

Daniela Name

Obra de Gechman

Tudo começou há apenas 40 anos, mas uma onda de exposições que serão abertas no Rio e em outras cidades brasileiras nas próximas duas semanas mostra uma disposição do mercado para refletir sobre a arte produzida nos anos 60 e 70. Um período de transformações profundas no mundo inteiro, mas ainda mais relevante para a arte brasileira: foi com os artistas desta época que a produção daqui passou a ser enxergada com toda sua força e singularidade nos outros países.

A lista de artistas é imensa: Ivens Machado e Regina Silveira estarão a partir de quinta-feira em mostras no Paço Imperial, o primeiro com uma grande retrospectiva, a outra apresentando novas experiências no Atelier Finep; Rubens Gerchman, um nome chave da Nova Figuração, acaba de encerrar uma exposição no Museu de Arte Contemporânea de Niterói e apresenta a partir de terça-feira, no CCBB, “Caixa de fumaça”, com trabalhos feitos com caixas de charuto; no sábado, o mesmo MAC abre mostra de Raymundo Collares, reunindo seus “Ônibus” e “Gibis”.

Nelson Leirner ganha retrospectiva em São Paulo

Na semana que vem, Lygia Pape, dama neoconcreta, ocupa todo o Centro de Arte Hélio Oiticica com quatro instalações inéditas; dois dias depois, Carlos Vergara mostra trabalhos recentes na Galeria Silvia Cintra. Em São Paulo, “Anos 70: Trajetórias”, em cartaz no Itaú Cultural, mostra por que a década rendeu tanto pano para manga. Na galeria Brito Cimino, uma retrospectiva de Nelson Leirner refaz os passos daquele que é considerado o pai da ready made à brasileira. Não é tudo: depois de encantarem o Rio com suas retrospectivas, Cildo Meireles e Antonio Dias viajam pelo país: o primeiro apresenta — primeiro em Recife, depois em várias outras capitais — a mostra “Geografia do Brasil”, que apresenta obras fundamentais como “Cruzeiro do Sul” e as “Inserções em circuitos ideológicos” numa perspectiva completamente nova; o outro leva seu “País inventado” para o Nordeste.

— Passei muito tempo evitando olhar para minha própria obra, porque sempre cultuei uma preguiça de Macunaíma, por medo de achar ruim o que eu tinha feito — diz Ivens, que se surpreendeu consigo mesmo ao revisitar as cerca de 75 peças selecionadas para a mostra “Engenheiro de fábulas”, no Paço. — Estou gostando muito de tudo. Sempre fui um solitário, mas hoje sei minha importância para a arte brasileira.

Os organizadores da exposição — mais uma produção da Imago, empresa de Maria Clara Rodrigues — também sabem, tanto que encomendaram à crítica Lígia Canongia um livro que dá conta das várias facetas da obra do artista (dos desenhos em que subverte a estrutura de cadernos, folhas quadriculadas e pautas musicais às esculturas de grandes dimensões), com um texto inédito de Paulo Sergio Duarte e uma antologia que inclui textos de outros críticos, como a própria Lígia, Fernando Cocchiarale, Eduardo Jardim e Paulo Herkenhoff.

Exposição no Paço fez Ivens redescobrir a própria obra

Ivens começou a produzir no início dos anos 60, mas estourou em 1973, depois que ganhou o 1 prêmio do V Salão de Verão, no MAM. Foi mais ou menos nesta época que Regina Silveira firmava a primeira grande guinada em sua obra. A artista apresenta esculturas, desenhos e uma instalação na mostra “Dobras”, em que trabalha sempre com a deturpação da perspectiva.

— Nossa geração tem trabalhos muito diferentes, mas há em comum esta busca por um conceito — acredita Regina.

“Geografia do Brasil”, exposição de Cildo Meireles que começa no dia 14, no Museu de Arte Moderna Aluísio Magalhães, no Recife, mostra que existem outras coisas em questão quando se fala dos anos 60 e 70. Mesmo em obras cuja apreensão imediata leva a um conteúdo extremamente político, caso de “Missões/Missão” (sobre a exploração jesuítica no Sul) ou “Inserções em discursos ideológicos” (em que gravava frases como “Quem matou Herzog?” em notas de dinheiro e garrafas de Coca-Cola e os devolvia à circulação), há sempre uma preocupação em avançar numa pesquisa formal.

— O que se apreende imediatamente é importante, mas o que interessa mais é o que aquela obra significa para a história do objeto de arte — diz Cildo. — O século XX representou uma pesquisa muito grande neste sentido, porque a exploração de outros meios além da pintura deu mais complexidade e pluralidade à arte.

Fonte: OGlobo.com
03/12/2001