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Rio vai abrigar o acervo de Rubem
Valentim
Daniela Name

O Rio pode ganhar uma sala dedicada à obra de
Rubem Valentim. Ao mesmo tempo em que o Museu Nacional
de Belas Artes abriga a retrospectiva Rubem
Valentim O artista da luz, que será
inaugurada hoje, os herdeiros do artista baiano, morto
em 1991, organizam seu acervo num apartamento em Copacabana
e pensam em negociar com um museu da cidade um espaço
permanente para as obras.
Ainda é cedo para dizer o que vamos
fazer, mas queremos que a obra dele seja vista
diz o sobrinho do artista, Roberto Bicca,
que administra a obra, já que Valentim
e a mulher, também já falecida,
não deixaram filhos. Seria ótimo
o Rio ter uma sala com as obras dele, como já
acontece no Museu de Arte Moderna da Bahia e na
Pinacoteca do Estado, em São Paulo.
Valentim vivia no Distrito Federal desde os anos
60, quando Darcy Ribeiro o convidou para dar aulas
na recém-criada Universidade de Brasília.
Depois de várias tentativas frustradas
de transformar a casa do artista numa fundação
mantida pelo governo federal, a família
resolveu vender o imóvel e transferir as
peças para o Rio, que assiste à
maior retrospectiva sobre Valentim feita nos últimos
anos.
A exposição já esteve
em quatro estados, mas nunca esteve tão
completa como aqui vibra o curador Bené
Fonteles, que criou uma cenografia especial para
as salas da Galeria do Século XX do MNBA,
com luzes e altares que fazem menção
à religiosidade do artista.
Para curador, obra vai muito além dos cultos
afro
Valentim sempre esteve associado à cultura
afro e aos ritos do candomblé. Para Fonteles,
que conheceu o artista em 1977, vincular a obra
apenas a este aspecto é uma visão
reducionista. Ele lembra que o artista
que foi abandonando a figuração
gradativamente a partir dos anos 50 definiu
um projeto de obra que tem tudo a ver com a herança
construtiva da arte contemporânea brasileira.
Ele reuniu um caldo cultural brasileiro
que não inclui apenas a cultura afro, mas
também a geometria das peças indígenas
e símbolos arquetípicos, universais.
A partir de 15 destes símbolos, criou o
que chamava de Alfabeto Kitônico,
com menções ao Santo Graal e ao
I Ching, além do candomblé
explica o curador. Há um projeto
claro na obra dele, que não pode ser tratada
como a de um pintor ingênuo, näif.
Fonteles lembra que o italiano Giulio Carlo Argan,
ex-prefeito de Roma, autor do best-seller Arte
moderna e um dos mais importantes críticos
da segunda metade do século XX, comprou
duas telas de Valentim para o Museu de Arte Moderna
da capital italiana e escreveu um texto sobre
o artista baiano:
Foi o único texto do Argan sobre
um artista brasileiro. Ele chegou a convidar o
Valentim para ficar morando na Europa, mas o artista
acabou voltando para o Brasil, porque tinha sido
convidado pelo Darcy Ribeiro para dar aula na
Universidade de Brasília. Mas ficaria frustrado,
porque a ditadura destruiu o sonho de uma universidade
perfeita.
A escolha temática que está
na raiz da pintura de Rubem Valentim resulta das
próprias declarações do artista:
os seus signos são deduzidos da simbologia
mágica que se transmite com as tradições
populares dos negros da Bahia. A evocação
destes signos simbólicos-mágicos
não tem, entretanto, nada de folclorístico,
o que se vê dos sucessivos estados através
dos quais passam antes de se constituírem
como imagens pictóricas (...) eles aparecem
subitamente imunizados, privados das suas próprias
virtudes originárias, evocativas ou provocatórias:
o artista os elabora até que a obscuridade
ameaçadora do fetiche se esclareça
na límpida forma de mito, escreve
Argan.
Um alfabeto de símbolos pintados
em cores vivas
A exposição no MNBA mostra que a
obra do artista se perpetuou como um jogo compositivo
que tinha seu alfabeto como base.
Cores vivas e uma pintura plana, com formas cheias,
misturavam elementos da cultura popular brasileira
Valentim colecionava brinquedos artesanais
de lata e madeira e tirava deles muito da inspiração
para as peças ao rigor da geometria
construtiva. Seus últimos trabalhos insinuam
mandalas, já que no fim da vida ele estava
muito ligado à cultura oriental.
Toda a obra de Valentim está estruturada
a partir da geometria do sagrado, um tipo de estruturação
batizada de proporção áurea
que estava em todas as peças sagradas dos
povos antigos e também na Mona Lisa,
de Da Vinci.
Fonte: Jornal OGlobo.com
16/01/2002
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