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Tomie Ohtake ganha espaço em
SP
São Paulo - Da força da grana que ergue e destrói
coisas belas, diz o verso de Caetano Veloso, já
quase um clichê da Paulicéia. A pergunta
que se avoluma, quando passamos em frente ao novíssimo
edifício da Avenida Pedroso de Morais, em São
Paulo, é se o Instituto Cultural Tomie Ohtake
se encaixa no caso 1 (a grana que ergue) ou no caso
2 (a grana que destrói)?
Encaixa-se nos dois casos. O Instituto Tomie Ohtake
- que será inaugurado parcialmente amanhã,
às 20 horas, celebrando o 88.º aniversário
da artista plástica japonesa - ocupa apenas
7 mil metros quadrados do edíficio de 65 mil
metros quadrados que a mídia tem apresentado
como a fachada de um monumental espaço cultural.
Nesses 7 mil metros quadrados está um dos mais
modernos e bem estruturados espaços para exposições
de artes visuais em São Paulo.
Ao mesmo tempo, o instituto está inserido em
um projeto que profana uma das regiões mais
tradicionalmente voltadas ao lazer na cidade, a Vila
Madalena, impondo-se por conta de uma lei urbanística
de exceção - a chamada Operação
Faria Lima. Os dois prédios de escritórios
que circundam o espaço beneficiam-se do projeto
"cultural" como um pretexto para vazar uma
quadra e invadir uma região sem edifícios
executivos.
Na Avenida Faria Lima, a lei permite construir apenas
uma metragem quatro vezes superior ao tamanho do terreno.
"Mas a lei estimula a criação de
espaços de fruição, para usos
diversos, especialmente culturais, ampliando essa
possibilidade", diz o arquiteto Ruy Ohtake, autor
do projeto. Foi com essa pré-condição
que o Grupo Aché, dono do empreendimento, conseguiu
autorização para erguer no local o complexo,
um conceito em claro confronto com a arquitetura da
região (somente outros dois edifícios
apresentam semelhanças, e os dois também
são de Ohtake).
"Nós jamais poderíamos erguer um
instituto para a Tomie sem a ajuda do grupo",
justifica o artista gráfico Ricardo Ohtake,
responsável pelo espaço museológico.
O investimento no instituto foi de R$ 9,5 milhões,
inteiramente custeado pelo Grupo Aché - que
é dirigido por um antigo amigo da família
Ohtake, Vitor Siaulys, velho vizinho no tempo em que
moraram na Mooca. Nenhuma lei de incentivo foi utilizada.
Como centro cultural erguido e gerido pela iniciativa
privada, o Instituto Cultural Tomie Ohtake não
vai ter grandes eventos gratuitos. Toda a programação
terá um preço, até mesmo a freqüência
a ateliês e oficinas. A Vila Madalena, embora
um bairro com perfil cultural, não tem espaços
públicos de porte - o mais próximo deverá
ser o novíssimo Sesc Pinheiros, na Rua Paes
Leme, em construção.
O projeto do complexo Tomie Ohtake está inconcluso
- falta ainda terminar o moderno teatro de 700 lugares
que vai complementá-lo. Na verdade, são
três prédios, um deles já plenamente
ocupado por um escritório de advogados, Demarest
e Almeida, com 250 profissionais. O outro, a Torre
Faria Lima, ainda em construção, terá
o mesmo destino.
Haverá ainda um centro de convenções
e oito salas de reuniões com auditório.
Ao final, prevêem os irmãos Ohtake, serão
5 mil pessoas circulando diariamente pelo local, que
têm acesso pelas duas avenidas, Faria Lima e
Pedroso de Morais.
"Escolhemos iniciar a homenagem a Tomie Ohtake
com obras do início de sua carreira, porque
1952 foi um ano de grande efervescência no cenário
das artes visuais", conta Ricardo Ohtake. Um
ano antes, tinha ocorrido em São Paulo a 1.ª
Bienal Internacional de Artes.
Além da fase mais figurativa da artista, com
cem pinturas em técnicas diversas, estão
expostas também as chamadas "obras públicas",
esculturas que ela começou a produzir em 1983.
Três esculturas autônomas espalhadas pelos
espaços expositivos e de circulação
do público são as vedetes - uma delas
tocou especialmente a coreógrafa americana
Trisha Brown, que anunciou intenção
de produzir uma obra interdisciplinar com Tomie Ohtake.
Toda a intenção de Ricardo Ohtake, que
concebeu uma museologia muito especial no espaço,
é tentar intensificar esses diálogos
entre disciplinas em todo o instituto. A sala de vídeo,
por exemplo, tem um conceito que permite projeções
circulares.
Tomie Ohtake fez 88 anos no último dia 21. "Na
cultura japonesa, é o aniversário mais
importante", diz Ruy Ohtake. "Por isso,
fizemos um esforço para a inauguração
coincidir com esse período", revela.
Ricardo Ohtake também lança amanhã
à noite um livro sobre a obra de sua mãe,
com 372 páginas e um inventário de 400
obras, edição patrocinada pelo Banco
Santos, Fapesp e Instituto Takano.
Fonte: Jornal Estadão
28/11/2001
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