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Visões para Tom
Daniela Name

Obra de Samico para "O  Boto"

Depois que passou a produzir seus próprios discos, Tom Jobim sempre deu muita importância ao aspecto visual deles. Capas e encartes muitas vezes tinham confecção quase caseira, elaborados com a ajuda dos filhos Paulo e Beth. A exposição "A imagem do som de Antonio Carlos Jobim", que pode ser vista no Paço Imperial, reúne 80 artistas plásticos que produziram obras a partir de canções do compositor. Concebida por Felipe Taborda, a mostra - que tem patrocínio da BR Distribuidora e apoio do Instituto Takano e da campanha O GLOBO nas Artes Visuais - faz parte de um decálogo que já contou com edições em homenagem a Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil. Se tudo der certo, os próximos homenageados são Roberto e Erasmo Carlos.

- Esta é a melhor exposição em termos de conjunto de obras, porque conseguimos reunir artistas de gerações muito diversas e o resultado das obras é o menos literal possível - acredita Taborda.

Com duas exposições marcadas em São Paulo para a mesma semana da inauguração de "Imagem do som" - uma no Centro Universitário Maria Antônia e outra na galeria Raquel Arnaud - Beth Jobim foi obrigada a recusar o convite para participar da homenagem ao pai. A artista, que já tinha mergulhado na lírica jobiniana para fazer as ilustrações do livro "Cancioneiro Jobim" (Casa da Palavra), que reúne letras e partituras do maestro, elogia a seleção de artistas abstratos como Eduardo Sued nesta edição do projeto.

- Não é preciso figura para dar forma a uma temática proposta pela música - acredita ela.

Safra de trabalhos é a menos literal de todos

Além de Sued, craques que assistiram ao nascimento e ao amadurecimento da bossa nova - como Aluísio Carvão, Samico, Lygia Pape, Amilcar de Castro, Flavio Shiró e Carlos Vergara - foram misturados a artistas, fotógrafos e ilustradores mais jovens, como Barrão, Vicente de Mello, Luiz Zerbini, Luiz Ernesto, Daniel Klajmic, Leonardo Aversa, Cabelo, Cruz, Efraim Almeida e Brigida Baltar. Affonso Beato, fotógrafo de boa parte da produção do Cinema Novo, deu sua interpretação para "Eu sei que vou te amar", enquanto Oscar Niemeyer usou o mesmo traço limpo e ligeiro de seus esboços arquitetônicos para dar forma a "Corcovado".

A safra de trabalhos em homenagem a Tom é a menos literal das quatro mostras. Com o desafio de dar forma a "Garota de Ipanema", a mais conhecida das músicas de Tom, Ana Laet fugiu completamente de uma ilustração que remetesse às areias da praia ou à famosa esquina entre as ruas Prudente de Morais e Vinicius de Moraes (antiga Montenegro), onde Tom e Vinicius avistaram as belas formas de Helô Pinheiro a caminho do mar. Paulista que mora no Rio há 20 anos, Ana apresenta um mapa-múndi onde todos os lugares do planeta - do Senegal aos Estados Unidos, da China à Argentina - deixam de ter seus próprios nomes para serem batizados como Ipanema.

- Ipanema se transformou numa espécie de Pasárgada, da qual todo mundo, em qualquer lugar do planeta, já ouviu falar - diz ela. - Já escutei "Garota de Ipanema" nos lugares mais estranhos.

Quando "Garota de Ipanema" começou a ser traduzida para outros idiomas, muitos queriam que a "moça do corpo dourado do sol de Ipanema" passasse a viver em outro lugar. Mas o maestro bateu o pé e disse que Ipanema seria conhecida no mundo inteiro. Dito e feito.

Melancolia é a marca de alguns trabalhos

Outra interpretação nada óbvia é a que o designer Jair de Souza fez para "Triste": um aquário dividido ao meio tem um dos lados completamente vazio, com a bomba de oxigênio desperdiçando ar; no outro, um peixe beta, espécie criada em laboratório que destrói seu semelhante caso divida com ele o mesmo espaço, expõe sua solidão irremediável.

- O peixe beta é uma espécie de pavão, tem uma beleza estonteante, mas não suporta o outro - diz Jair. - A música não fala apenas da separação, mas da certeza de solidão.

A melancolia também marca a obra de Barrão, que, por coincidência, usou dois aquários empilhados em "Modinha". A canção, que ganhou versão doída na voz de Elis Regina, fala de "um luar desesperado a derramar melancolia em mim". Na visão de Barrão, a tristeza vem de um luar de vidro e água, que joga para a superfície bolhinhas de ar.

- As bolhas vão explodir na sala da mostra, como um último suspiro - explica ele.

Carvão, Amílcar e Lygia Pape na mesma sala

Em ’Pato preto’, Sued faz fitas escorrerem da tela; Antonio Bernardo cria diapasão de ouro para ’Desafinado’

"A imagem do som de Antonio Carlos Jobim" reúne três nomes fundamentais para o movimento neoconcreto. Aluísio Carvão deu forma a "Lamento do morro" com muito lirismo, enquanto Amilcar de Castro fez um de seus desenhos completamente abstratos para "Borzeguim". Já Lygia Pape criou um objeto para "Imagina", música de Tom com letra de Chico Buarque. O arco-íris mencionado na canção é um portal de arame sobre um cubo branco.

A exposição traz surpresas, como um diapasão de ouro criado pelo joalheiro Antonio Bernardo para "Desafinado" e uma tela de Samico. Um dos maiores gravadores do país, o artista pernambucano - que recheia seus trabalhos com lendas populares e histórias que ele mesmo cria - recebeu uma música que caiu como uma luva para sua obra: "O boto".

- Fico feliz de estar mostrando uma tela, mas espero que o público a considere mesmo uma boa surpresa - diverte-se ele.

Emmanuel Nassar faz obra pop para "Você vai ver"

Carioca, Sued pôs o pé no Pernambuco de Samico para dar sua visão para "Pato preto", que fala da seca expulsando o sertanejo para São Paulo. O artista, conhecido por suas pinturas rigorosas e geométricas, surpreende ao fazer um conjunto de fitas coloridas escorrerem da tela para o chão.

- É sombrio, porque a música é triste - diz Sued.

Luiz Ernesto e Emmanuel Nassar viveram o desafio de não perder o vínculo com suas obras. O primeiro, que recebeu "Esse seu olhar", apresenta um trabalho de fibra de vidro com a imagem de um barquinho e a palavra "Dissipação", bem no clima de fim de caso da canção. O barquinho faz uma ponte com a bossa nova e é uma marca do artista. Já o paraense Nassar, conhecidos por sua obra com um pé no pop, criou dois discos - que também podem ser óculos - para "Você vai ver".

Guto Lacaz ("O grande amor") e Cabelo ("A felicidade") optaram pelo humor. Para falar da canção sobre a ilusão do carnaval, Cabelo criou uma capa - uma fantasia, no fim das contas - onde escreveu "Abaixo a gravidade".

- Apesar de triste, a música do Tom nunca é solene, tem leveza. Por isso... abaixo a gravidade! - brinca ele.

A IMAGEM DO SOM DE ANTÔNIO CARLOS JOBIM Oitenta artista plásticos contemporâneos interpretam visualmente 80 músicas de Tom Jobim.

Paço Imperial: Praça Quinze de Novembro 48, Centro — 2533-4491. Ter a dom, do meio-dia às 17h30m. Entrada franca.

 

Fonte: OGlobo.com
27/12/2001