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Do ouro africano aos tesouros da arte, a saga do comendador Berardo
Arnaldo Bloch
Não fosse fato notório ser ele dono de uma das grandes coleções
européias de arte do século XX, ninguém diria que o português José
Berardo tem qualquer afinidade com o acervo de milhares de obras
que repousam em Sintra e no Centro Cultural de Belém, em Lisboa;
15 delas, aliás, emprestadas para a mostra “Surrealismo”, com destaque
para o “Telefone lagosta branca” de Salvador Dalí, a “Paisagem negra”,
de Max Ernst, e “O abismo prateado”, de Magritte.
E00 se o título pomposo a que seu nome é associado — comendador
Berardo — cairia bem em qualquer salão de Eça ou Machado, a fala
simples, as maneiras despojadas, quase de camponês, fariam dele,
sem qualquer demérito, personagem mais afeito às tascas e botecos;
ou aos corredores do novo-riquismo .
Não transparece nos modos do comendador, tampouco, o fato de ser
um poderoso viticultor: é sócio de quintas de prestígio como a da
Bacalhoa, a dos Loredos e a do Carmo, esta última em joint venture
com Baron Rotschild; tem um pé na produção do francês Château Lafitte;
é o segundo acionista da gigante espanhola Bodegas & Bebidas;
e parceiro, no Canadá, da Colio Estate Wines. Mas seus tentáculos
estão também em outros setores, principalmente banking
e hotelaria. Qual o tamanho do negócio?
— Ora, não sei como dizer. É como perguntar quanto vale minha coleção.
Na verdade, todos os negócios que tenho, faço de conta que não existem.
Se amanhã eu morrer, não faz diferença, tudo continua a ser tocado
— despista o comendador, em visita, esta semana, ao Rio, para conhecer
as galerias do CCBB.
A maneira com que se refere a seu acervo — cujo forte está no período
surrealista, na pop art e na vanguarda russa do início
do século XX — traduz a mesma (aparente) indolência com que trata
os seus empreendimentos. Boa e velha receita para melhor gozar a
vida, admite ele, sacolejado por risadas de bonomia:
— Sem dúvida, resta bastante tempo para o prazer. Ora, se já estou
aqui no Brasil há uma semana a fazer nada...
A trajetória do comendador, plena de hiatos inexplicáveis, é uma
típica aventura de forasteiro. Nascido na Ilha de Madeira, onde
o pai trabalhava com rotulagem de garrafas, emigrou, aos 18 anos,
para a África do Sul, onde passou anos trabalhando duro na lavoura.
Foi fazendo seu pé-de-meia valendo-se dos parcos ordenados de agricultor
e investindo em “pequenos negócios próprios”, sobre cuja natureza
não dá muitas pistas.
No final da década de 70, como a cotação do ouro andasse em baixa,
afetando a indústria de mineração local, adquiriu terras em minas
desativadas prevendo flutuações vindouras. A leitura de sua biografia
na homepage da Coleção Berardo, que relata a construção
de sua fortuna, é excelente entretenimento. Eis um trecho:
“Tive o pressentimento e a intuição de que o preço deste metal precioso
ia aumentar fortemente. De facto, em relativamente pouco tempo,
viria a ser considerado um dos maiores proprietários de reservas
de resíduos auríferos à superfície, em Joanesburgo. Tal como tinha
previsto, o preço do ouro teve uma subida galopante e, em pouco
tempo, as multinacionais propunham-me fazermos joint ventures”.
No saguão do hotel Méridien, confortavelmente instalado numa poltrona,
ele recorda os melhores tempos de sua juventude:
— Comprei tudo barato, o ouro explodiu e aí foi fácil: nem era mais
uma questão de chegar ao primeiro milhão de dólares, mas de começar
já com cinco milhões... e de cinco em cinco milhões...
A aquisição de seu tesouro artístico, na década de 80, também começou
na África.
— Quando menino, colecionei selos, arrancando-os das cartas que
chegavam em casa. Desde esta época, sonho com uma grande coleção
de arte.
Àquela altura envolvido com diamantes, Berardo desembolsava o necessário,
e Francisco Capelo, um ex- art-dealer a quem se afeiçoara
e ajudara em período de magras vacas, arquitetava o acervo com total
liberdade e sem interferência do patrão.
Quando, no início da década de 90, voltou a Portugal, o novo milionário
— que então tateava o ramo hoteleiro, adicionando-o definitivamente
a seu portfólio — já tinha um importante acervo. E sete anos depois
erguia o primeiro Museu de Arte Contemporânea em Portugal, na cidade
de Sintra, arredores de Lisboa. Mas, como ele gosta de dizer, “construir
museu não adianta: é preciso encher-lhes as paredes”.
— Nunca imaginei que minha coleção fosse alcançar esta dimensão,
já que faço isto por mero prazer. Não é à toa que nunca vendi um
só quadro do acervo...
O mesmo não se pode dizer das empresas que compra e vende continuamente:
a pièce de résistence de seus múltiplos negócios, ele explica,
está na aquisição — e venda — de companhias com grande potencial.
Mas no mercado de artes, é só comprador.
Aliás, o comprador anuncia: cresce aos seus olhos o potencial da
arte sul-americana em geral e da brasileira em particular. Verdade
que esta ainda engatinha em seu catálogo. Entre Bacons, Dalís, Dubuffets,
Duchamps, Kiefers, Picassos, Pollocks e Warhols, apenas uma Adriana
Varejão e um Ernesto Neto compõem a delegação brasileira. Mas por
pouco tempo...
— Não cito nomes para que a minha casa não se transforme numa festa
permanente. Mas vocês vão ver, no momento oportuno. Posso adiantar
que estou negociando com um importante galerista de Miami obras
brasileiras das décadas de 60 e 70.
Amigos próximos de Berardo, entretanto, garantem que, aqui mesmo
no Brasil, ele já estaria fechando a compra de esculturas de Maria
Martins, maior estrela nacional da mostra no CCBB. Nesta visita,
outros valores pátrios despertaram a vontade de investir: o patrimônio
urbano, por exemplo. Através de sua fundação, José Berardo — que
gaba-se de ter recuperado florestas em Portugal e os jardins do
Monte Palace, no Funchal, e de ser o maior colecionador de azulejos
da Europa — cogita investir em propriedades no Alto da Boa Vista
e em outros locais da cidade, que ele percebe “abandonados pelos
poderes públicos”.
— O Rio melhorou muito nas última décadas, mas é preciso cuidar
dos tesouros que a cidade tem em vez de deixá-los converterem-se
em prédios de apartamentos — ensina o comendador Berardo, com um
tino preservacionista bem antenado com o debate que tantos corações
apaixonou neste inverno.
Especulação por especulação, quem sabe não entra aí um dinheirinho
na seara da preservação?
Fonte: Jornal O Globo
27/08/2001
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