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TBC abriga peças representantes da
arte experimental brasileira
Maria Lúcia Candeias
Tradicionalmente o teatro experimental se desenvolve
graças ao subsídio dos governos. É assim na Alemanha,
na França e mesmo nos Estados Unidos, onde, embora
não haja financiamentos federais, os public theaters
são subvencionados por entidades municipais com recursos
oriundos das empresas locais.
Aqui em São Paulo, além dos oficiais, há alguns mantidos
por entidades como o Sesc e o Sesi, ou mesmo pela
própria classe teatral, como o Ágora. Ainda vale citar
um certo número de casas de espetáculos apoiadas por
entidades privadas, como o Alfa, o Cultura Artística
e a Sala São Luiz, mas que se dedicam às grandes produções
e aos nomes famosos.
A exceção que mais salta aos olhos é, sem dúvida, o
Teatro Brasileiro de Comédia. O teatro onde a história
começou a ser escrita, nos anos 50, foi inteiramente
reformado, mantendo o estilo original. Seu proprietário,
e responsável por essas melhorias, é Marcos Tidemann,
um empresário bem-sucedido na área de postos de combustíveis.
Hoje, o TBC abriga quatro pequenos teatros onde se
exibem peças experimentais e uma sala maior, mais
comercial. Salas pequenas que em geral primam pela
qualidade do repertório, características que lhe valeram
no ano passado um prêmio concedido pela Associação
Paulista dos Críticos de Arte, a APCA.
É claro que o mérito desses acertos leva também a
assinatura da direção artística — que é quem seleciona
o grupo mais apto a alugar cada sala —, função ocupada
no ano passado por Gabriel Villela e que este ano
ficou por conta de Zeca Bittencourt. Não que Villela
tenha saído inteiramente do local. Apenas deixou o
cargo e lá está com uma nova montagem de Saltimbancos
e com Gota D’Água, que encerrou temporada no Tom Brasil.
Mas não são essas obras de Chico Buarque o que mais
impressiona no repertório atual, já que todo mundo
as conhece e admira. São as montagens dos espaços
pequenos, justamente as mais experimentais.
Este é o caso de A Luz Dos Olhos Meus, de Eliézer Rolim
(texto e direção), um grande artista nordestino que
ainda não teve as oportunidades que merece no eixo
Rio-São Paulo, mesmo considerando que sua adaptação
teatral de Val da Sarapalha tenha recebido grandes
elogios e tenha sido premiada (o melhor espetáculo
sobre poesia e poeta brasileiro foi de sua responsabilidade,
Anjos de Augusto).
Esta montagem atual é mais singela, mas também excelente.
Focaliza a história de Quinô (Lincoln Rolim), um pobre
cego com sua bengala que encontra a solidariedade
e a amizade de Candinha (Patrícia Horta Lemos). É
um enredo tocante, original e restaura a fé no homem,
ainda que por duas horas. Os atores fazem ótima interpretação,
com destaque para Lincoln Rollim, que brilha no papel
de cego, composição complexa. Cabe ressaltar também
a trilha sonora de Chico César, totalmente integrada
à peça, bonita e sem virtuosismos desnecessários.
Ele, que estreou fazendo música para teatro infantil
(Amigdalas) no ano passado, recebeu o prêmio Panamco
por tal trabalho.
A Luz dos Olhos Meus está em cartaz em horário alternativo
(terça, quarta e quinta) na mesma sala (Teatro de
Arte) que exibe nos fins de semana outra encenação
digna de nota, Anjos de Guarda, de Zeno Wilde. Mais
conhecido por Blue Jeans e Uma Lição Longe Demais
(que levou todos os prêmios de 1986, quando estreou),
é um mato-grossense radicado em São Paulo cuja vida
e obra, interrompidas prematuramente por um câncer,
foram dedicadas às pessoas carentes e principalmente
ao menor. Este texto não é uma exceção. Enfoca o relacionamento
de Nira (Carolina Gonzales), Gabriel (Manoel Candeias)
e Fumaça (Fagner Pavan), ela psicóloga e os dois fugitivos
da Febem.
A direção de Marcelo Marcus Fonseca conduz muito bem
os atores, que interpretam de modo convincente tanto
o menor recuperável como o infrator mais incorrigível,
assim como a moça sensível e afetiva. É necessário
mencionar inclusive o ótimo cenário e a sonoplastia
assinados pelo encenador. Um espetáculo bastante competente
envolvendo apenas gente jovem, ainda que maiores.
Mais experiente (35 anos de carreira), o ator Wolney
de Assis encarna o índio de I Juca Pirama, de Gonçalves
Dias, espetáculo que tem agradado àqueles que gostam
de poesia, do autor de Canção do Exílio e de uma das
principais peças brasileiras do século XIX, Leonor
de Mendonça. Dirigido de modo criativo e competente
por Zeca Bittencourt (adaptação, cenário, figurino
e luz), a montagem impressiona pelo visual, com muitas
cores, areia e demais elementos da natureza.
Fonte: Terra
23/10/2001
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