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Suspeita esfria leilão de desenhos atribuídos a Tarsila
Roberta Pennafort

Três interessados em cadernerta com ilustrações da pintora brasileira desistiram do negócio após polêmica sobre sua autenticidade


Rio - A dúvida quanto à autenticidade de desenhos atribuídos a Tarsila do Amaral que constam de uma caderneta que foi a leilão na quarta-feira afugentou os compradores. Três pessoas já haviam se interessado pelo livreto, mas desistiram diante da polêmica. A peça pertenceu ao poeta suíço Blaise Cendrars e conteria, segundo a antiquária responsável pela venda, um esboço do Abaporu, o mais célebre quadro da pintora. A autoria foi contestada pela historiadora Aracy Amaral, especialista em Tarsila. Ela viu os desenhos na edição do Estado do dia 5. Mesmo assim, o antiquário Sebo Fino, que realizou o pregão, decidiu manter a caderneta entre os itens dispostos. A dona do Sebo Fino, Ana Maria Miranda, alertou aos candidatos a compradores, antes do início do leilão, que pairava a dúvida. Os desenhos foram oferecidos não como sendo de Tarsila e sim como tendo autoria atribuída a ela. "Não posso vender gato por lebre", disse Ana Maria.

Ela avisou aos participantes que Aracy havia afirmado que se tratava de uma falsificação grosseira. Informou também que havia consultado um especialista, o qual lhe explicara que era visível em todos os desenhos o traço a lápis "suave, fino e delicado" de Tarsila, que foi coberto com "pena aberta" e colorido posteriormente. Para Ana Maria, resta saber quem cobriu: "Terá sido Tarsila? Blaise? Ou a pessoa que ficou com a caderneta?", disse. Agora, a dona do antiquário pretende consultar outros conhecedores da obra de Tarsila para se certificar se ela é ou não autora dos desenhos. São casas, árvores e pessoas que teriam sido retratadas por ela durante viagem que fez com Blaise Cendrars e colegas modernistas ao interior de Minas Gerais, em 1924. Numa das páginas, vê-se uma mulher que se assemelha à retratada no Abaporu. Se for constatada a autoria, Ana Maria vai tentar vender a caderneta novamente. A peça era a mais valiosa do leilão e tinha lance inicial de R$ 12 mil.

Jornal Estadão
24/10/2003