Inventor
da ‘make up’ surrealista
Daniela Name

Na semana passada, o celular guardado dentro de uma mochila
MH ovalóide tocava sem parar, quase impedindo-o de conversar.
Mas Zaven Paré não perdia o bom humor.
— Quando ele toca, não são problemas e sim soluções — explicava
o francês, que tem um português quase impecável depois de
oito anos morando no Brasil.
Cenógrafo da exposição “Surrealismo”, que o Centro Cultural
Banco do Brasil inaugura hoje à noite, para convidados,
e amanhã, para o grande público, Paré diz que seu grande
desafio foi transmitir a atmosfera surrealista de maneira
imediata e, ao mesmo tempo, transmitir uma aura museológica
ao CCBB.
— Queria fazer o visitante esquecer que isso aqui já foi
um banco — admite ele, que teve a idéia de transformar o
“Peixe solúvel” que anunciava o livro homônimo de André
Breton numa escultura gigante que virou o ícone da mostra.
— A iconografia surrealista já era bastante sugestiva e
tinha ainda os céus de Magritte e outros elementos fáceis
de trabalhar. Mas o mais importante será fazer com que o
público perceba uma unidade entre as salas e preste atenção
às grandes estrelas, que são as obras.
Para que isso aconteça, Paré gastou praticamente toda a
munição de sua criatividade na fachada e no foyer, que ganhou
céu de Magritte e mapa surrealista desenhado por Breton
na rotunda. Dentro do espaço museológico que pretendeu criar
no CCBB, as interferências nas obras são mínimas. A maioria
das salas foi pintada de preto e cinza e, quando há uma
intervenção, ela é mais arquitetônica do que cromática ou
luminosa, para não incidir diretamente nas cores usadas
pelos artistas. A primeira sala, que fala dos antecessores
do movimento, é um labirinto negro, com focos de luz sobre
as peças. As grandes exceções são as salas “O amor” e “A
revolução”, no primeiro andar, pintadas, respectivamente,
de rosa e vermelho. O cofre no qual estarão as fotos de
Magritte também ganhou um carpete vermelho, para dar uma
idéia de aconchego e amplidão.
Um verdadeiro exército concretizou as idéias do cenógrafo:
mais de cem pessoas coordenadas pelo produtor Bel Fernandes
consumiram meses de trabalho e toneladas de material.
Fonte: Jornal
O Globo
20/08/2001