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Surrealismo
Daniela Name

Piano Surrealista


O cartão de visitas é um peixe cenográfico feito num barracão de escola de samba. A ambientação mistura nuvens e escamas, azul e rosa, céus e mapas. E tenta fazer de “Surrealismo” — megaexposição que o Centro Cultural Banco do Brasil inaugura amanhã, para convidados, e na terça-feira, para o grande público — uma festa para os sentidos. O carioca vai ver cerca de 300 obras saídas de 64 museus e coleções particulares nacionais e internacionais. Há peças de René Magritte, Miró, Picasso, Dalí, Man Ray e Marcel Duchamp, além de textos originais e experiências realizadas por André Breton, o grande idealizador do movimento.


A experiência foi a grande herança surrealista e é por isso que, antes de procurar as pinturas mais coloridas, o público deve prestar atenção nos textos e nos muitos objetos que compõem a mostra. O que não quer dizer que as telas de Magritte, como “Abismo prateado”, sejam algo desprezível. Também não o são a abstração de Miró, as telas de Max Ernst, o Dalí da juventude, os desenhos e esculturas de Picasso — que já existia antes e sobreviveu depois de o surrealismo chegar ao fim.


Há sempre quem torça o nariz e jogue pedra nas grandes mostras que vêm para o Rio. Dizia-se que o Monet que chegou aqui em 1994, em mostra do Museu Nacional de Belas Artes, estava guardado na reserva técnica dos museus franceses e mostrava um artista no ocaso da vida, nos anos em que pintava em Giverny já praticamente cego. Informação procedente. Mas quantos cariocas já tinham visto um Monet? Quantos tinham sequer noção de como eram a luz e a pincelada impressionistas? Quantos tinham entrado em um museu? Certamente muito poucos, pois éramos — e ainda somos — um país que carece de informação e formação visual. Já tínhamos visto Rodin e depois vimos Camille Claudel, Dalí, a ótima mostra de Expressionismo Alemão. E Picasso em recortes, em três exposições. A principal delas, no MAM, tinha o honesto título “Picasso, anos de guerra” e, embora não conseguisse abranger a imensa carreira do artista espanhol, reunia obras-primas como “Gato comendo passarinho” e os retratos de Dora Maar.


“Surrealismo” — que tem entrada franca e fica em cartaz até 28 de outubro — também pode ser uma aula introdutória sobre este movimento efêmero, que algumas vezes produziu pinturas de gosto duvidoso, mas que reuniu alguns dos nomes mais importantes da arte do século XX, tentou apresentar alternativas para um mundo angustiado depois da Primeira Guerra e deixou a performance e o ready made — a arte feita a partir de objetos do dia-a-dia — como legado. A aula vai mostrar que o estilo se ramificou no teatro, na literatura e no cinema — há uma sala onde será projetado “L’age d’or”, obra-prima de Buñuel — e também atravessou o Atlântico para influenciar México, Cuba e Argentina.

Fonte: Jornal O Globo
20/08/2001