CCBB
carioca expõe um panorama do surrealismo
Beatriz
Coelho da Silva
O
surrealismo chega amanhã ao Rio de Janeiro. Cerca de 400
obras do movimento que surgiu entre as duas guerras mundiais
do século passado e mudou a forma de conceber arte, sociedade
e política, vão estar expostos durante dois meses no Centro
Cultural Banco do Brasil (CCBB). A mostra é o foco de uma
série de eventos que vão de palestras explicando o que é
e como aconteceu o movimento e passam por atividades pedagógicas,
ciclo de filmes, lançamento de livros e happenings.
O próprio CCBB mudou sua aparência, pois as janelas e a
rotunda foram pintadas no estilo de René Magritte, um dos
papas do movimento, e um enorme peixe cor de rosa, símbolo
presente nos manifestos divulgados na época, foi montado
na porta principal, como chamariz para o público. "Não estamos
comemorando data, mas sim o maior evento surrealista já
produzido no Brasil e na América Latina", explica o responsável
pela exposição, Romaric Suger Büel, que foi adido cultural
da França no Rio e já trouxe para cá mostras de Monet e
Salvador Dalí.
A exposição terá 11 blocos, que explicam o movimento cronológica
e tematicamente. "O surrealismo surgiu em conseqüência da
1.ª Guerra Mundial e numa rebelião contra a sociedade herdada
do século 19. Seu mentores eram personagens típicos desse
período", ensina uma das curadoras da mostra, Denise Mattar.
"Todos eles participaram do conflito e dele saíram arrasados
com a perda de suas convicções. O progresso no qual acreditavam
era capaz de produzir os horrores da guerra. Para mudar
a sociedade, era preciso partir do indivíduo."
Embora
o surrealismo tenha antecedentes importantes e conseqüências
que duram até hoje, os organizadores reduziram a seleção
a obras produzidas entre 1924, ano em que André Breton publicou
o primeiro Manifesto Surrealista, e 1947 quando ele realiza
em Paris uma retrospectiva do movimento.
Os
módulos foram organizados de forma a contar uma história,
para não serem simplesmente um amontoado de quadros e peças
de arte conhecidas, ressalta a diretora artística do CCBB,
Marta Pagy. "Esperamos um público de 500 mil pessoas, com
uma estratégia para apreciar a mostra com conforto", acrescenta.
Esse público vai ver ícones como Le Piano Surrealiste, guache
de Salvador Dali, feito como storyboard de um filme de mesmo
nome dos irmãos Marx, que nunca chegou a ser realizado;
Pueblo Cansado, óleo sobre tela de Max Ernst, um auto-retrato
de Man Ray; Le Gouffré Argenté, de Magritte, e ainda um
Cadavre Exquis de André Breton, Valentine Hugo, Tristan
Tzara e Knuskon. Esta última, uma experiência comum na época,
que consistia em um artista começar a obra e outros prosseguirem.
O nome, em português, Cadáver Delicioso, também era aleatório,
pois sorteavam-se palavras para servirem de títulos.
Fonte:
Jornal Estadão
19/08/2001