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O que é o que é
Arnaldo Bloch

Cruz


O ano é 2001; a cidade, o Rio. Vésperas da inauguração, no CCBB, da exposição “Surrealismo” (que abre hoje para o público). Nas ruas, O GLOBO descobre que poucos sabem o que é surrealismo: sequer sonham que um movimento na década de 20 procurou libertar o artista dos limites da razão. Até aí nada de novo: não saber, infelizmente, é moda. Intrigante é que, no vocabulário das mesmas pessoas, a palavra “surreal” seja comum. Como num desses McDonald’s que viram ponto de encontro adolescente. O povo teen silencia até que Gabriel, 17 anos, abra o debate:


— Surreal é uma coisa diferente, de outro mundo.


— É nome de banco — alguém grita.


Mas Édison, de 15 anos, arrisca:


— Não é quadro de Salvador Dalí?


O antenado garoto é bruscamente interrompido:


— Que nada, surreal é nome do programa da Susana Werner na televisão.
Chamada a opinar por telefone sobre as conexões que a extinta atração no Sportv tem com o movimento, Susana responde com franqueza:
— Foi idéia de uma amiga, aproveitando a gíria dos adolescentes. Mas quanto ao movimento, eu não estava ciente não.


Também por telefone, o professor Pasquale Cipro Neto dá uma luz à discussão.


— É um adjetivo que, no seu uso e em seus significados, transcendeu o movimento estético e intelectual, daí o fenômeno, que a gente chama de extensão de sentido. É quase metonímico, acontece também com palavras como pop: hoje, nada mais pop que o pop.
Houve época — recorda o professor de filosofia e história da educação da USP, Luiz Jean Lauand — em que até existencialismo era pop. — Sartre chegou a assinalar que o termo “existencialista” era usado popularmente nos sentidos mais inverossímeis — cita Lauand.
Por sinal, até em marchinha de carnaval dos anos 50: “Chiquita Bacana/ Não usa vestido, não usa calção/ Inverno pra ela é pleno verão/ Existencialista, com toda razão.”


Mas tanto “pop” quanto “existencialista” levam vantagem lexicográfica: existem no Aurélio, enquanto o verbete “surreal” não merece sequer um dígito. Mas deixe estar! Aliás, já está: na boca do povo!
— Surreal é sub-real — improvisa Julio Dale, 16 anos
— Que nada, é tipo uma utopia, uma coisa muito nada a ver, não é natural, não tem nexo — corrige a amiga Ana Clara.


Pertinho dali (sem trocadilho), em frente à pizzaria Guanabara, Caroline Ferreira, 15 anos, postula que surreal “é mil coisas”. Cite uma:
— Chocolate. Quando é muito bom, é surreal — recita Caroline, inconsciente (?) de que faz referência a uma marca de chocolate.
Na casa de açaí Bibi, o estudante Rafael Lund dá o seu lance:
— Surreal é o impossível, no sentido da ficção, tipo Lara Croft e 007.
O assunto é cinema? Vamos à locadora, onde a advogada Flavia Moceline, 29 anos , aluga “A possuída”. A conversa passa longe do entretenimento:
— Quando percebemos que ao nosso lado há miséria, injustiça e, ao invés de ajudar, fechamo-nos no próprio mundo, a realidade à nossa volta fica surreal. Ou será que é o nosso mundo que fica?



Entre a ética e a perplexidade, o “surreal” está na moda, na internet, na política e até no real


Consulta especializada: o artista plástico David Curi acha que, divorciada de suas origens, a palavra “surreal” de fato se transformou num ícone contemporâneo.


— O surrealismo instrumentalizou o desregramento dos sentidos como contestação à linearidade capitalista. Hoje, porém, a sua abreviação não tem sentido libertário. Está associada à perplexidade, à busca de uma nova ordem ética. A tentativa surrealista de atingir um ponto da mente no qual vida e morte, real e imaginário, não sejam contraditórios atualiza-se, hediondamente, no padrão pós-moderno “virtual”. A total indistinção de tudo é tão tecnicamente possível quanto a clonagem humana — analisa o artista.


Perplexidade e ética podem até representar caminhos do pensamento surreal brasileiro (até porque, como dizia Dias Gomes, “o Brasil desmoraliza todos os absurdos”), mas a verdade é que, ética ou aleatoriamente, a palavrinha está em todas. Um giro pela internet permite visualizar a variedade de seus usos e abusos. Nas passarelas, por exemplo:
“Coleção Outono/Inverno 2000/01. A natureza vista de uma forma surreal, onde as suas cores e texturas são transformadas de um modo também quase surreal. Padrões imaginários, que lembram galhos, flores e plantas, construções inacabadas, bordados irregulares orgânicos, franjas localizadas.”


Ou na política, onde não poderia faltar:


“O senador Renan Calheiros (PMDB-AL) qualificou ontem, por meio de uma nota, de ‘surreal e ridícula’ a acusação do ex-coronel da PM de Alagoas Manoel Cavalcante de que o assassinato da ex-deputada federal Ceci Cunha (PSDB-AL) foi tramado no gabinete dele.”
Na literatura, eis o texto promocional de um novo título:
“Engraçado, irônico, simples, real, surreal.”


Num site dedicado a sonhos, o relato “Encontro surreal”, assinado por uma mulher, acena com a esperança de que se encontre enfim uma história condizente com o “Manifesto surrealista”. Ledo engano.
“Um dia fui ao correio e a atendente era uma moça muito bonita, simpática e peituda. Fiquei impressionada com o tamanho!! (...) Parou num bosque, na saída da cidade... (...) me perguntou se eu queria tocar seus seios... eu disse que não gostava de mulheres e ela respondeu: eu também não...” Ao final, após confessar que gemeu de prazer, a autora de “Encontro surreal” acorda e conclui que foi tudo um sonho: “acordei assustada”.


Nada que assuste e agite nos seus túmulos a galera surrealista, cuja arte (e os espectros) vem aí para arrebentar no CCBB. Afinal de contas, surreal, hoje, é pop! Quer dizer... é surrealista! Ou melhor, fora do real. Aliás, nada disso: é o próprio real! Não, não! É chocolate... 007... Susana Werner... nome de banco... nada a ver. Bom, para encurtar a história: surreal é surreal, isso ninguém nega. E ponto final.

Fonte: Jornal O Globo
21/08/2001