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Uma soberana nos bastidores da arte

Daniela Name

Clara

O chão está limpíssimo, as peças em seus lugares, os garçons preparam as bandejas para o coquetel, que começa daqui a pouco. Os convidados chegam para o vernissage da exposição, que foi erguida sobre dois pilares: um deles é o talento do artista; o outro, o pulso firme do produtor. No caso do Rio, produtora: é Maria Clara Rodrigues quem tem estado por trás de boa parte das mostras que dão o que falar na cidade.

Dona do Imago Escritório de Arte, ela transformou “Ivens Machado, um engenheiro de fábulas”, aberta ao público na quinta-feira, no Paço Imperial, numa das inaugurações mais concorridas e numa das montagens mais elogiadas na temporada. Também assinou outros dois grandes sucessos do ano: “Lucio Fontana — A ótica do invisível”, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, e “Antonio Dias, o país inventado”, que, depois de estar em cartaz em Salvador, Curitiba, São Paulo, Rio, Vitória e Brasílio, chega a Fortaleza e, em 2002, vai para Recife.

Parede caiu antes da inauguração de Ivens

— Às vezes ia dormir pensando num problema e no dia seguinte, durante a reunião, a Clara aparecia com a solução — lembra Antonio Dias, que se diverte com os abacaxis que a produtora é obrigada a descascar. — Não sou do tipo de artista que fica ansioso, mas há outros que ficam e ela é obrigada a administrar isso.

Há outras cascas de banana no caminho de uma exposição. Na de Lucio Fontana, Clara teve que fazer o papel de amortecedor na pendenga entre Paulo Herkenhoff, o curador brasileiro, e as curadoras italianas da Fundação Fontana. O motivo: Herkenhoff queria tirar os acrílicos que cobriam os quadros — e minimizavam o efeito dos cortes do artista — mas as italianas faziam questão de mantê-los. No fim das contas, metade dos acrílicos caiu, metade ficou.

Na de Ivens Machado, Clara trocou boa parte da equipe de montagem depois que uma parede de barro projetada especialmente para a mostra simplesmente desabou, três dias antes da inauguração. Mas na quinta-feira, a parede estava lá, linda, como se nada tivesse acontecido.

— Quando a exposição “Brasil dos holandeses” viajou para Recife, íamos inaugurar um prédio que estava sendo restaurado. A restauração atrasou e tivemos que virar várias noites sem saber se conseguiríamos terminar a mostra — lembra ela. — Mas nunca tive grandes problemas, porque sempre me cerco de uma equipe maravilhosa. Damos conta.

Arquiteta de formação, ex-mulher do artista plástico Carlos Vergara, Clara sempre conviveu com a arte, mas trabalha diretamente com ela há dez anos. As atividades só diminuíram um pouco durante o Plano Collor, mas, durante todo este tempo, Clara colecionou grandes vitórias — como a de viajar com suas exposições para muitas cidades além do Rio e de São Paulo — e pequenas delícias. Entre elas, a de ver estudantes do 2 grau inebriados com as peças do alemão Joseph Beuys, dono de uma obra que muita gente grande considera hermética.

— Os adolescentes faziam perguntas incríveis e isso me mostrou a importância da arte vinculada à educação — diz ela. — Uma boa montagem, com muita informação, pode derrubar barreiras.


Fonte: Jornal OGlobo.com
10/12/2001