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Rio exibe paisagens abstratas de Scully
Maria Hirszman

Obra de Scully: ritmos e estruturas arquitetônicas simples

Artista irlandês volta ao País e inaugura no Centro de Arte Hélio Oiticica mostra com 35 obras, entre óleos, aquarelas, pastéis, fotos e pinturas sobre madeira

São Paulo - Homenageado com uma das salas especiais da 25.ª Bienal de São Paulo, realizada no primeiro semestre de 2002, o artista irlandês Sean Scully volta ao País, mostrando a partir de amanhã à noite, no Centro de Arte Hélio Oiticica, 35 obras da série Wall of Light. São óleos, aquarelas, pastéis, fotos e pinturas sobre madeira, realizados entre 1983 - pouco antes de ele iniciar a pesquisa atual, após uma viagem ao México - e 2001. Totalmente abstratas, como as pinturas compostas de "tijolos" de cor, ou de teor figurativo, como as fotos de fachadas, que mostram combinações de cores e faixas, num rico diálogo entre o real e o imaginado, as obras de Scully estariam propondo uma espécie de "reinvenção da pintura", como afirma Ronaldo Brito.

"É uma espécie bruta, pesada, de pintura, feita muito mais de pasta acumulada e castigada do que propriamente de gestos expressivos", resume o crítico no texto do catálogo da mostra carioca, a 110.º da carreira do artista. Como o próprio pintor diz, seu objetivo é criar uma obra baseada em ritmos e estruturas arquitetônicas simples, que falem diretamente ao público. Qualquer semelhança com Mondrian não é mera coincidência. Aliás, nessa busca de uma pintura ao mesmo tempo simples e capaz de provocar emoções, são muitos os diálogos com vários cânones da arte mundial. Scully menciona com freqüência a importância de Matisse em sua pesquisa. Brito também estabelece interessantes diálogos - e contraposições - com os minimalistas americanos, como Jasper Johns e Jackson Pollock. Em vez de "inviabilizar o gesto pictórico", "Scully pretendia justamente sustentar a atualidade cultural da prática da pintura".

Luminosidade, cor, transparência, todas essas questões formais da pintura estão fortemente presentes na obra de Scully, mas em nenhum momento o artista parece estar recriando uma combinação distante e aleatória de elementos geométricos que nada têm a ver com ele e com o mundo em que vive.

Pelo contrário: ao admirar suas telas, nos damos conta de como é possível transformar o mundo em códigos pictóricos, com uma impressionante expressividade, preservando ao mesmo tempo a sensação de realidade e, sobretudo, fazendo com o que o espectador se sinta fazendo parte desse mundo de cores, formas e sentimentos.

Fonte: Jornal Estadão
28/08/2002