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Mostra resgata obra de Antonio Lizárraga
Maria Hirszman

Apesar da filiação ao concretismo, obra de Lizárraga não tem o rigor e a secura que caracterizam trabalhos que se constroem matematicamente

São Paulo - A exposição de Antonio Lizárraga, que o Instituto Universitário Maria Antônia inaugura amanhã, é uma grata surpresa. Além de resgatar esse importante artista, recolocando seu nome no circuito com a deferência merecida, a mostra deixa evidente que, apesar de praticamente ter perdido os movimentos do corpo - em um acidente vascular cerebral ocorrido em 1983 - e de ser quase um octogenário (Lizárraga nasceu em 1924, em Buenos Aires, instalando-se definitivamente no País no fim da década de 50), continua movido por uma surpreendente vitalidade criativa.

Trata-se de uma mostra discreta, que ocupa apenas uma sala - a melhor - do Centro Universitário - mas que logo de início diz a que veio. São obras de pura criação intelectual (impossibilitado de realizar os próprios trabalhos, ele orienta suas assistentes a executá-los), mas que transpiram uma evidente relação de prazer e encanto com a vida e parecem ter sido feitas sob o impacto das emoções simples que nos assaltam no cotidiano.

Como escreve Taisa Helena Palhares no belo e sucinto texto que acompanha a exposição, "os trabalhos de Antonio Lizárraga nos colocam em contato com uma geometria capaz de rir de si mesma, ao mesmo tempo que sorri para o mundo". Apesar da evidente filiação ao concretismo, ao qual aderiu rapidamente após chegar ao Brasil, sua obra não tem o rigor e a secura que normalmente predominam em trabalhos que se constroem matematicamente. "É como numa sinuca", disse ele a Lorenzo Mammì, que dirige o Centro Maria Antonia, quando perguntado sobre seu método de composição. É o acaso e não o cálculo que está por trás das linhas, cubos e planos de cor que ganham forma em seus trabalhos.

Há uma certa ironia em suas pinturas, uma certa brincadeira perceptiva, que leva o espectador a duvidar o que tem diante dos olhos, a considerar plano o que é relevo e relevo o que é plano. O uso mais liberal da cor nessa série de obras, realizadas todas no biênio 2000-2002, também reforça esse lado "libertário" de sua obra. Curiosamente, essa liberalidade também se verifica na fase mais madura de outros artistas, como se, com a idade, o medo do exagero fosse substituído pela certeza da beleza cromática.

Ao contrário de nos repelir, o contraste de tons aparentemente dissonantes - escolhidos pelo artista e anotados cuidadosamente por suas assistentes nos planos de trabalho realizados em papéis milimetrados, que também serão exibidos em vitrines para que o público tenha uma dimensão de como esses trabalhos foram feitos - nos seduzem e alegram.

Além da qualidade dos trabalhos expostos, essa exposição ganha uma importância ainda maior se levarmos em consideração que Lizárraga tem um espaço relativamente pequeno no circuito expositivo. Desde 1993, quando realizou exposição no MAM, ele não exibia sua obra em um espaço institucional e, nos anos subseqüentes, houve duas mostras comerciais (na Galeria Valú Ória) e uma pequena intervenção na Livraria Vozes. Até mesmo nos eventos coletivos sua presença fica aquém de sua importância, confirmando, para nossa infelicidade, que em tempos de espetaculização das artes, o marketing pessoal dos artistas muitas vezes vale mais do que a seriedade de seu trabalho.

Jornal Estadão
18/02/2003