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Pequena porção da obra de um grande artista
Wilson Coutinho

A mais nova galeria da cidade, a H.A.P., no Jardim Botânico, divide suas salas de exposição com obras de dois artistas: o português, mas muito carioca Antonio Manuel, e o capixaba Hilal Sami Hilal, ainda quase desconhecido do nosso público. O primeiro, ao contrário do segundo, desde os 20 anos, em 1967, ao participar de “Tropicália”, coletiva comandada por Hélio Oiticica no MAM-Rio, é personagem que não se descarta da história cultural da cidade. Tornou-se lendária sua nudez, em 1970, feita no mesmo museu — uma atitude que tinha um quê de subversão na época.

O tempo, talvez, tenha diminuído o valor crítico de tal ato, pois ficar nu no início daquela década ajuntava rebeldia com certidão de nascimento. Num período de massificação de Rimbauds (1854-1891) — o transgressivo jovem poeta francês que, aos 15 anos, fazia poemas extraordinários, teve um caso complicado com Verlaine e parou, muito cedo, de escrever para traficar armas na Abissínia — ficar pelado, tanto nas partidas de tênis em Wimbledon, na Inglaterra, quanto na praça Dam, em Amsterdam — o mais tolerante palco para a iconoclastia de um jovem de cabelos compridos que amava os Beatles e os Rolling Stones — era um ato de humor, crítica política e, em alguns casos, experiência artística e expressiva. Mais tarde, nas praias cariocas, o fio dental tornou-se a última linha matisseana a serviço da divisão das nádegas femininas.

Nos anos 70, Antonio Manuel era, então, um jovem curioso e de muito talento, admirado pelo crítico Mario Pedrosa, que gostou de um de seus trabalhos, no qual urinava nas garrafas de Coca-Cola — símbolo do domínio cultural do imperialismo americano — e muito influenciado por seu “irmão” espiritual, Hélio Oiticica. Depois da morte de Hélio, em 1980, Antonio Manuel, por gratidão, fez várias obras em sua homenagem e memória.

É bom lembrar, porém, que o melhor trabalho com jornal na arte brasileira, os flans — cartões de papelão usados nas tipografias para impressão, hoje em estado de extinção — é de sua autoria. São obras-primas, mistura de relevo e gravura, narrando, por meio das manchetes, a crônica política das manifestações estudantis contra a ditadura militar. São trabalhos impossíveis de ser refeitos, usando, contudo, uma banal técnica de reprodução.

Na exposição na H.A.P., Antonio Manuel mostra quatro telas de tendência geométrica, duas “esculturas” de tijolos, com buracos no meio, um múltiplo. Não é muito. O fato é que Antonio Manuel é um dos últimos de sua geração a percorrer o circuito internacional. Expôs “Fantasma” — uma ótima instalação feita com pedaços de carvão — em Serralves, no Porto, o templo luso da arte contemporânea, no Oxford Museum of Modern Art, na Inglaterra e, ano que vem, ele se apresentará no Guggenheim de Bilbao e no de Nova York.

O artista, de fato, merece consagração, sucesso e dinheiro. Para quem não conhece o seu itinerário inventivo — principalmente os flans — a mostra, na nova galeria, pode parecer, apenas, uma lance para o mercado, baseado numa grife que tende, se bem administrada, a ficar poderosa. Mesmo assim, se o espectador não encontrar o melhor Antonio Manuel em exibição, vai se deparar nas suas pinturas, por exemplo, com um artista competente e — com certa surpresa — muito elegante.

Fonte: Jornal O Globo
15/08/2001