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Quando a imaginação ocupa o poder
Wilson Coutinho

Um Cão Andaluz

O que acontece quando há o encontro fortuito de uma máquina de costura com um guarda-chuva numa mesa de dissecação? Uma beleza fatal. Com este mote, extraído do livro “Cantos de Maldoror”, escrito pelo poeta francês Isidore Ducasse (1846-1870), que assinou-o com o pseudônimo de Comte de Lautréamont, o surrealismo, por meio do seu líder, André Breton, ganhou um programa: juntar imagens bizarras e esperar que isto escandalizasse o público burguês. Conseguiu.


Como arte da provocação, assumiu a liderança de ovos podres jogados nela. Só não chegou ao ápice deste tipo de ibope porque, em 1913, “A sagração da primavera”, balé de Stravinski, dividiu, meio a meio, o teatro Châtelet, em Paris, com troca de murros, apupos e aplausos, transformando-se no escândalo artístico mais badalado do século XX. E era só um espetáculo. O surrealismo foi um movimento, com ambições internacionais. É correto dizer, porém, que, até a Segunda Guerra, muito da vanguarda artística adorava uma quitanda inteira atirada sobre ela. “O que acabou com o surrealismo é que nada mais escandaliza ninguém”, disse um melancólico Luis Buñuel no final da vida.


Buñuel sabia do que estava falando. A estréia, em 1929, de “O cão andaluz” —- o primeiro filme surrealista, feito por ele e por Salvador Dalí — exibido no Studio des Ursulines, recebeu as vaias de praxe. Alguns convidados que assistiram a ele no castelo dos Noailles — aristocratas com fé modernista que patrocinaram a película — perderam a compostura: espelhos de cristal caríssimos ficaram quebrados.


Na verdade, os escândalos fazem parte da crônica da arte moderna, que conta episódios sobre o gosto do público e o efeito das provocações, às vezes, bem promovidas pelos artistas. O surrealismo pretendeu-se, porém, em sua intenção essencial, ser muito sério. Lutou por uma liberdade jamais alcançada, pregou a mudança da vida e da arte, unindo-as. Era exigente até na transgressão. Não aceitava qualquer uma. Quando o manifesto veio à luz — o original e não os extratos que normalmente se publicam — eram cerca de 32 páginas e, contando as palavras soltas nas páginas, podia ser maior em quatro páginas do que o manifesto comunista, escrito por Marx e Engels em 1848.


Seu autor, o poeta André Breton, formado em psiquiatria, o publicou em 1924, usando como avalista teórico o fundador da psicanálise, Freud. O estado do sonho era mais real do que o da vigília. Sugere que a imaginação deve ocupar o poder, o slogan futuro da juventude rebelde de maio de 68. O sonho, a liberdade e a revolta contra tudo que a impede de se desenvolver dá ao manifesto o seu espírito libertário.


O peixe, que serve de símbolo para a mostra “Surrealismo”, no Centro Cultural Banco do Brasil, saiu do texto de Breton. “Eis o ‘peixe solúvel’ que ainda assusta um pouco. PEIXE SOLÚVEL, não serei eu o peixe solúvel, nasci sob o signo de Peixes e o homem é solúvel em pensamento”, escreveu. É peça de propaganda da atual mostra. O poeta não reclamaria. Gostava de publicidade. No “Manifesto surrealista”, disse: “Eu sustentava que o mundo acabaria, não por um belo livro, mas por uma bela propaganda do céu e do inferno”. No segundo manifesto, publicado em dezembro de 1929, já sabia como era bom chocar as pessoas. Escreveu: “O ato surrealista mais simples consiste em sair à rua, revólver na mão, atirando ao acaso, tanto quanto for possível, na multidão”. Na Candelária, o desenho de um peixe solúvel é mais sensato do que o de uma arma de fogo.


Fruto de rebeliões estéticas e éticas, nascido da carnificina da Primeira Guerra, o surrealismo foi mais organizado do que o dadaísmo, que o precedeu em Zurique, em oito anos. Guardou dele um punhado de extravagâncias, mas seu líder, André Breton, usava método, a psicanálise de Freud. Era um homem mais frio do que um freezer enterrado no Pólo Norte. Como é hábito na psicanálise, a mãe podia ser culpada pela frieza do seu caráter. Em 1920, informou-lhe que preferia vê-lo morto na trincheira, caso ele abandonasse o curso de medicina. Breton tirou o canudo, mas perdeu a indulgência. Como organizador cultural, foi obsessivo. Tinha pendor para julgar os que não andavam na linha surrealista, caso do ator e teatrólogo Antonin Artaud, que foi expurgado do movimento. Porém um generoso elogio seu significava o mesmo que oferecer um vestido de noiva a uma virgem tímida. Muitos artistas casaram-se com ele para sempre.

Fonte: Jornal O Globo
20/08/2001