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Peticov faz obra para estação de trem
Camila Molina

divulgação

Peticov marca com três painéis novo espaço que está sendo construído na Estação Santo Amaro da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM)

São Paulo - Para marcar o novo espaço que está sendo construído na Estação Santo Amaro da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) - previsto para ser inaugurada em setembro e que funcionará como a linha 5 de Metrô - Ligação Capão Redondo-Largo Treze, o artista plástico Antônio Peticov criou três painéis já presentes no local. As obras, ou melhor, as pinturas públicas, já estão totalmente finalizadas e poderão ser contempladas por qualquer transeunte que utilizar o metrô. Essa não é a primeira vez que o artista faz uma obra para uma estação já que o Metrô República comporta uma de suas criações, há 12 anos.

"Quando me mostraram esse espaço, optei por fazer uma pintura mural, em vez de uma montagem com peças construídas e colocadas como, por exemplo, azulejos. Porque essa será uma linha muito popular e, por isso, queria fazer alguma coisa bem perto de uma pintura normal", explica o artista. Para desenvolver os três painéis, Peticov resgatou e selecionou imagens de seu repertório antigo, diga-se onírico e multicolorido.

As duas paredes laterais do saguão dedicado ao trabalho do artista, que comportam as escadarias para se transitar pelas duas plataformas de embarque e desembarque da nova linha, trazem os painéis A Conexão e A Passagem. Dispostos um de frente para o outro como que refletidos, um painel representa o dia e o outro, a noite.

No rodapé de cada um dos painéis, a mesma paisagem italiana bucólica pintada com tinta acrílica. "A paisagem não é do Brasil porque, para mim, poderia ser de qualquer lugar. A paisagem é um bem comum, está sempre decifrando um aspecto humano." E em cada painel, Peticov cria um jogo entre noite e dia: uma espécie de buraco com uma escada que leva para a noite ou para o dia. "São imagens que pintei há 30 anos e que se encaixam muito bem com o fato de as pessoas estarem indo e vindo da noite para o dia e do dia para a noite", analisa o artista. E sobre esses dois símbolos, o pintor diz que em toda a sua obra o dia significa o homem e a noite, o "plano divino, místico, o inconsciente. É uma idéia que sugere transcendência".

Já o terceiro e maior painel, intitulado Mitocôndria é formado por uma paisagem litorânea canadense em seu rodapé e, no céu, bem no centro do painel, uma forma horizontal e em espiral com todas as cores do espectro. "Esta também é uma imagem antiga que aparece em minhas obras. E como a mitocôndria é uma organela da célula que produz a energia, a idéia dessa obra vem desse próprio local. Aqui, não é só uma estação de passagem simplesmente, mas também uma ligação com o ambiente de trabalho."

E a forma da mitocôndria revela, em seu interior, pedacinhos de noite rodeados pelas cores alternadas do espectro magnético, combinados em espiral. O lado exterior significa, segundo Peticov, a atividade criativa. "É a idéia de uma forma em movimento."

Sobre fazer uma obra pública, Antônio Peticov diz que o trabalho do artista plástico é muito limitado. "Se o artista for um pouco mais conhecido, quem sabe ele faça uma exposição e cem pessoas vão ver. E se ele for um pouco mais ainda conhecido, suas obras vão para um museu e alguns milhares as verão. Mas hoje em dia, milhares não significa nada. A televisão atinge milhões de pessoas, discos e livros são vendidos aos milhões. E sempre tive a necessidade de ter mais retorno. Isto aqui é uma possibilidade, é a democratização do trabalho visual ."


Fonte: Jornal Estadão
28/08/2002