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Panelaço da Paulicéia
contra as panelinhas
Mauro Ventura
O artista plástico paulista Nelson Leirner
pôs lenha na fogueira ao dizer que há
uma panela carioca que rejeita o que
vem de fora. Em entrevista ao GLOBO, na quarta-feira,
ele disse que o Rio é bairrista e fechado
para os artistas de outros estados. A afirmação
não encontra ressonância na galerista
gaúcha Laura Marsiaj, nem nos artistas
paulistas Nuno Ramos, Angelo Venosa e Luiz Zerbini,
que se disseram bem-recebidos na cidade.
O Rio é mais aberto que São
Paulo. Mesmo com menos galerias, incorpora melhor
a pluralidade diz, por sua vez, o artista
plástico cearense Eduardo Frota.
Cinema nacional versus cinema estrangeiro
Mas o desabafo de Leirner levanta a questão
dos grupinhos nas artes plásticas
e nas artes em geral. Um especialista, que prefere
não se identificar, diz que há panelas
no Rio, como a que seria formada por Tunga, Cildo
Meireles e Waltercio Caldas.
Eles têm que entrar em tudo que é
exposição, não importa o
que for, seja uma homenagem a Lucio Fontana, a
Picasso...
Mas é natural, ele observa: os três
estão entre os artistas brasileiros mais
reconhecidos e respeitados no exterior.
No cinema, havia nos anos 80 dois grupos bem distintos:
os cineastas paulistas e os cariocas. Os grandes
produtores, como as famílias Farias e Barreto,
também seriam vistos por muitos como uma
panela poderosa.
Mas, para o diretor Tony Venturi, presidente da
Associação Paulista de Cineastas
(Apaci), o cinema brasileiro viveria um novo momento,
em que a disputa regional teria dado lugar a uma
rivalidade internacional.
Hoje a dicotomia não é mais
tanto Rio versus São Paulo ou grandes produtores
versus realizadores, e sim cinema nacional versus
cinema estrangeiro. Há um discurso comum
de que os inimigos não somos nós
e sim os filmes de fora, que ocupam 92% das nossas
salas.
A rixa Rio e São Paulo pode estar ultrapassada,
mas será que o mercado carioca e o paulista
são os mesmos? Segundo o cineasta Ugo Giorgetti,
são dois mundos diferentes, algo como Peru
e Chile.
Querer que nossos filmes sejam aceitos no
Rio e, se isso não ocorrer, dizer que é
complô carioca é uma visão
simplista. O cinema responde ao que a cidade é.
Todo cineasta paulista é herdeiro da Vera
Cruz, que era formado por estrangeiros. Isso se
reflete numa obsessão maior com a técnica.
No teatro, as diferenças entre as duas cidades
ficam mais visíveis no público,
como observa o produtor cultural Marcus Montenegro:
O público no Rio é mais segmentado
na terceira idade. Você tem que fazer um
trabalho com as vans, senão corre o risco
de uma temporada-relâmpago. O Rio precisa
renovar seu público.
O diretor paulista Marcos Caruso, autor de sucessos
como Trair e coçar é só
começar, diz que questões
climáticas, geográficas e históricas
fazem com que os mercados sejam tão diferentes.
O humor carioca é mais descompromissado.
O paulista é mais retraído na sua
espontaneidade. Há grande diferença
no comportamento da platéia. Em Honra,
os paulistas se emocionavam mais e os cariocas
se divertiam mais diz ele, que é
presidente da Associação dos Produtores
de Espetáculos Teatrais do Estado de São
Paulo (Apetesp) Minha peça Porca
miséria ficou sete anos em cartaz
em São Paulo. No Rio, um mês.
Na hora de passar o pires há outra diferença,
diz Caruso:
As empresas do Rio são mais sensíveis
aos espetáculos que tenham nomes da TV.
Em São Paulo, isto não é
uma necessidade absoluta para se conseguir patrocínio.
O elenco da peça também ajuda na
hora de conseguir espaço para a montagem.
Os teatros dão sempre prioridade
às cartas marcadas, ou seja, aos espetáculos
que tenham maior possibilidade de sucesso. No
Rio, isso está mais aliado aos nomes globais
do elenco.
Segundo Caruso, cria-se uma barreira para atores
de São Paulo desconhecidos do grande público.
E volta e meia celebra-se como novo um artista
com uma longa estrada.
É comum no Rio alguém se perguntar:
Meu Deus, de onde surgiu esse ator?
Só que ele não surgiu, está
em São Paulo há 20 anos.
O ator Ney Latorraca considera o bairrismo um grande
folclore e diz que a única diferença
é o maior poder aquisitivo de São
Paulo, que permite ingressos mais caros.
Imprensa paulista ironizava o rock de bermudas
Na música, a rixa foi mais evidente nos
anos 80, quando a imprensa paulista classificava
pejorativamente como rock de bermudas
o som produzido por gente como Lulu Santos e os
integrantes do Kid Abelha. O contraponto seria
o som contestador de grupos como Ira! e Titãs.
Hoje, alguns dos titãs moram no Rio e não
vêem traços de bairrismo:
No Rio, as portas se abriram com muita facilidade.
Músicos de várias áreas se
misturam sem problemas. São Paulo é
mais segmentado diz Charles Gavin, há
cinco anos na cidade. Mudei drasticamente
em termos artísticos desde que vim para
cá. Pude me aproximar das escolas de samba.
A arte reflete a vida nas cidades. Em São
Paulo, o rap, mais virulento, dá o tom,
enquanto no Rio o espaço é ocupado
pelo funk, mais dançante. Uma das poucas
polêmicas musicais recentes envolvendo as
duas cidades foi lançada no último
disco dos cariocas Celso Fonseca e Ronaldo Bastos.
A canção Samba é tudo
faz referências irônicas ao paulista
Max de Castro: Ser sambista é muito
mais/Do que ser notícia nos jornais de
Sampa (...)/Pra fazer um samba a mais/É
preciso mais que pretensão. O bairrismo
agoniza, mas não morre.
Fonte: OGlobo.com
14/01/2002
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