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Longe da ‘panela’ carioca
Daniela Name

Nelson Leirner

Nelson Leirner mora no Rio desde o início de 1997, mas a comemoração de seus 70 anos, marcada para o dia 16, vai acontecer em São Paulo. Faz sentido — mas não pelo fato de o artista ser paulistano. Considerado o pai da ready made (a transformação de objetos comuns em arte) verde-amarela e um híbrido de Marcel Duchamp e Andy Warhol com tempero nacional, Leirner diz que não tem nenhum motivo para abrir a porta de seu confortável apartamento no Jardim Botânico para uma festa. Pelo simples fato de que as portas da cidade nunca se abriram para sua arte.

— Cheguei aqui há cinco anos e tinha uma mostra marcada no Centro Cultural Light antes de vir, mas depois dela quase nada aconteceu. O mercado de arte carioca tem uma mentalidade muito fechada e as instituições protegem os artistas que são daqui. Existe uma sociedade carioca que é bairrista e preconceituosa, mas os artistas do Rio, que são ótimos, são recebidos de braços abertos em toda parte, inclusive em São Paulo — diz ele, que deixou a capital paulista para ficar perto de sua terceira mulher, a artista plástica carioca Liliana Ribeiro.

Leirner deixou São Paulo, mas São Paulo nunca o abandonou. Veio de lá o convite do Instituto Takano para realizar um livro retrospectivo sobre sua obra, que tem texto do crítico Tadeu Chiarelli e vai ser autografado no dia 17, na inauguração de uma exposição na galeria Brito Cimino. A mostra reúne peças de vários períodos — da década de 60 ao ano passado — e deixa claro que, apesar de recluso, o artista viveu no Rio um período de intensa produtividade. Aqui desenvolveu toda sua série sobre a “Mona Lisa”, que esteve na Bienal de Veneza de 1998 (em mais um convite surgido através de curadores paulistanos); aqui teve a idéia para os trabalhos sobre clonagem; aqui vem dando os últimos alinhavos para a instalação que será vista pelo público, a partir do dia 23 de março, numa das salas especiais da Bienal... de São Paulo, claro.

— Vivo mergulhado na ironia porque no Rio estou vivendo a fase mais produtiva da minha vida, mas os cariocas não viram nada do que eu fiz — diz Leirner. — Não vou sair daqui, mas, quando me perguntam se depois de cinco anos já me sinto um carioca, respondo que não, porque é impossível. Nunca fui convidado para nada e nem visitado por nenhum curador no Rio. E o curioso é que os convites continuam surgindo, mas sempre para outros lugares do Brasil e do mundo. Se isso não acontecesse, poderia até fazer uma autocrítica, achar que o problema era comigo, que minha obra desandou. Mas acho que não é o caso.

No livro, a memória dos anos da ditadura

Avesso à acomodação, Leirner conta que o livro editado pelo Instituto Takano lhe deu a oportunidade de rever a vida e de perceber que a memória, às vezes, prepara armadilhas para quem pretende fazer história. O texto de Chiarelli, fluido e em tom de crônica, procura amarrar, sem preocupações com a ordem cronológica, os momentos mais importantes da carreira de Leirner, sempre apoiando-se em depoimentos do artista.

— Percebi que a gente tende a engavetar algumas coisas e a romantizar outras. Então, tive que ligar muitas vezes para o Tadeu e atrasar o trabalho dele com correções — conta Leirner que, entre outras lembranças, desarquivou os dias do início dos anos 70 em que hospedou o crítico Mário Pedrosa em seu apartamento. — Ele estava foragido por causa da ditadura e havia um rodízio que o fazia mudar de casa a cada três dias. Fui avisado quando chegou a minha vez e convivemos. Poderia ter usado o livro para forjar uma aproximação bem maior do que a que tive com Pedrosa, porque o admirava muito e sou o único que está vivo. Mas ela não seria real, assim como também não seria real dizer que participei ativamente da resistência política. Minha obra tocava na política, mas hoje fico ressentido de não ter participado de uma luta pela transformação da sociedade.

Fã de Almodóvar, artista adora a corda bamba entre popular e erudito

Nelson Leirner sempre conviveu com a arte. Imigrantes poloneses, seus pais participavam ativamente da vida cultural paulistana dos anos 40 e 50. O pai, Isai, ex-operário de uma malharia, transformou-se em empresário têxtil em São Paulo e acabou virando uma espécie de consultor para assuntos internacionais, intérprete e articulador político da recém-surgida Bienal da cidade. A mãe, Felicia, era escultora e se transformou numa das grandes anfitriãs da cidade.

— As pessoas iam a festas lá em casa e meus pais penduravam meus trabalhos ao lado dos de Chagall e Miró — lembra. — Mais tarde, começaram a surgir convites para exposição. Hoje sei que eles me apoiaram demais naquele começo, usando os contatos que tinham. Talvez por isso eu tenha explodido com tudo mais tarde, mas não dá para avaliar isso tanto tempo depois.

Artista distribuiu obras de arte num happening

A “explosão” tem um nome, Rex, grupo que Leirner formou em 1966 com Wesley Duke Lee e Geraldo de Barros e que teve a participação de Carlos Fajardo e José Resende, entre outros. O grupo durou apenas um ano, mas foi o suficiente para contestar frontalmente o mercado de arte através da “galeria” Rex Gallery and Sons e do jornal “Rex Time”. Terminou com um grande happening, “Exposição-não-Exposiçào”, em que Leirner propunha que o público superasse obstáculos para levar para casa de graça as obras que estavam presas na parede.

A esta altura, a obra de Leirner já estava centrada no objeto e na apropriação de coisas cotidianas para a construção de uma peça de arte. Fazia isso com muita ironia, como em seu “Porco empalhado”, enviado para o Salão de Brasília de 1967. Depois que o júri aceitou a obra, Leirner deu uma entrevista para o “Jornal da Tarde” questionando os critérios do júri e iniciando o que chamou de “Happening da crítica”. O livro e a exposição na Brito Cimino mostram que os anos 70 acabariam se transformando num desvio deste caminho — o artista passou a desenhar e a fazer filmes em super-8 e obras públicas para tentar se aproximar da população e contestar o regime militar.

Nos anos 80, ironia misturada à história da arte

Com os anos 80 e a abertura política, o objeto volta com força total e mais leveza, mas ainda mais irônico e brasileiro. As referências à história da arte também passam a ser uma marca registrada do trabalho. Leirner — que foi professor da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), em São Paulo, e do Parque Lage, no Rio — diz que tem orgulho de fazer um trabalho que vive na corda bamba entre a arte contemporânea e uma produção näif, popular. Foi assim com a série de barcos de papel, em que se apropria de cédulas de dinheiro, selos e imagens de macaco para construir as obras em cores bem nacionais. Foi assim também em “Hierarquia?”, em que encheu uma geladeira com bonequinhos de lata de refrigerante comprados prontos.

— Ainda olham a arte contemporânea com preconceito e dizem “Ah, mas isso eu faria” — diz ele. — A arte contemporânea é um código e uma obra só pode ser admirada se este código for difundido, ou seja, se as ferramentas desta espécie de idioma forem acessíveis. Misturo este código com a cultura brasileira popular e vivo no limite. Tenho grande admiração pelo Almodóvar, porque ele faz isso no cinema. Usa várias referências kitsch em seus filmes, sem nunca fazer uma pornochanchada.


Fonte: OGlobo.com
09/01/2002