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Painel de Di Cavalcanti é restaurado no RJ
Beatriz Coelho Silva

Rio de Janeiro - Quatro dos cinco quadros que formam o painel Composição do Rio, pintados por Di Cavalcanti, em 1952, por encomenda do jornalista Samuel Weiner para o saguão de seu jornal, Última Hora, vão estar expostos no Centro Cultural Light a partir do dia 25, completamente restaurados e compondo a sala com mobiliário que pertenceu à primeira companhia de eletricidade do País. O painel, que se completa com um quinto quadro, atualmente na Dan Galeria, de São Paulo, passou por oito meses de restauração, assinada por Marly Oberlaender, que devolveu as cores originais e os preservou das marcas de sua tumultuada história.

Segundo a gerente do Centro Cultural Light, Luciana Mandarino, a restauração custou R$ 20 mil, sem uso de leis de incentivo, apesar de a instituição ter uma vasta programação patrocinada pela lei estadual de cultura, que permite a destinação de uma porcentagem do Imposto sobre Circulação de Mercadorisas e Serviços (ICMS) às atividades culturais.

"Não foi sequer cogitado porque as obras de arte que estão com a Light são poucas e não chegam sequer a constituir um acervo", explica Luciana. "Este painel será mostrado ao público porque é importante para o Rio de Janeiro e dentro da obra de Di Cavalcanti."

Em 1952, quando o jornal Última Hora completava um ano de existência, seu proprietário, Samuel Weiner, encomendou as obras a Di Cavalcanti, então no auge da fama, aos 55 anos, e com as mesmas idéias esquerdistas defendidas pelo diário.

Foram realizados cinco quadros, cada um com 2,40 m x 1 55 m, instalados depois no saguão do prédio onde funcionava a redação, na Avenida Presidente Vargas, no centro da cidade. Lá ficaram até 1971, sofrendo todo tipo de intempérie - naturais, como a maresia, ou provocadas, como anotações de número de telefone ou rabiscos feitos por quem passava no local.

Colaboração - Segundo a restauradora Marly, os quadros foram pintados na casa dos artista, na Praia de Botafogo, com a colaboração do pintor Athos Bulcão na fase final. Retratam cenas do cotidiano do Rio, festas católicas e afro-brasileiras, o carnaval e a semana santa, as praias e as praças, gente dos subúrbios e da zona sul, além de um deles ter a imagem da Justiça, mas com os olhos abertos e não vendados.

Em todos eles, a figura predominante é um misto de homem e espantalho, que pode ser tanto o jornalista quanto o carioca típico. "Nessa época, a pincelada de Di Cavalcanti começava a perder a força e suas cores já não eram tão fortes e vivas como nos anos 30 e 40", diz Marly. "No entanto, foi preciso retirar pinturas feitas posteriormente, em cima da original, modificando a obra do mestre."

No início dos anos 70, por causa de problemas financeiros do jornal, Weiner (que acabaria tendo que se desfazer do periódico) vendeu quatro quadros do painel à Light, então presidida por Antônio Galloti. Foram levados para a sede da empresa, onde continuaram expostos ao tempo. Quando o Centro Cultural da Light foi inaugurado, os quadros foram para lá. Só se soube do paradeiro do quinto quadro no ano passado, quando se decidiu sua restauração. "Chegamos a pensar em adquiri-lo para que a obra ficasse completa, mas a sala de exposição já estava pronta e decidimos inaugurá-la só com os quatro painéis", justifica Luciana. "Mas essa hipótese não está totalmente afastada."

O painel fez parte da história da Última Hora, um jornal surgido para apoiar o presidente Getúlio Vargas, que assumiu em 1951, desta vez por eleição direta. Defendia posições nacionalistas, mas também inovou: abriu grandes espaços para fotografia e trouxe para a redação intelectuais e deu ênfase à cobertura de eventos culturais e sociais.

Nunca chegou a ser dos mais vendidos, mas teve versões em Minas Gerais e São Paulo. O jornalista Joel Silveira, que trabalhou no jornal nessa época, lembra que o painel refletia o ambiente da redação. "Muitos de nós fomos estimulados por aqueles cinco quadros", lembra. "Eles sugeriam que a reportagem também podia ser uma arte."

Fonte: Jornal Estadão
01/02/2002