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O oratório de Baltazar

A aspiração da Prefeitura de ver reconduzido a Sorocaba o oratório de Baltazar Fernandes é das mais justas. Mas antes de fazê-lo, seria conveniente dotar a cidade de um espaço adequado para a preservação de suas peças de arte sacra. O oratório é, ele mesmo, indício de um atentado seriíssimo contra a memória de Sorocaba: a demolição da casa-grande de Baltazar Fernandes.

Do imóvel restaram as fotos, executadas pela regional paulista do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, "na década de 40, quando no local funcionava uma olaria" - como esclarece em seu belíssimo livro "A vila tropeira de Nossa Senhora da Ponte de Sorocaba", publicado em 1999, a pesquisadora sorocabana Lucinda Ferreira Prestes, mestre em Arquitetura pela FEA/USP. A demolição foi tanto mais lamentável porque, como anotou a pesquisadora, a construção "constitui exemplo considerado (...) estranho dentro da história da arquitetura colonial paulista."

Examinando a iconografia existente, ela demonstra, com a reprodução de duas fotos - a da estrutura do madeiramento, mostrada na edição de domingo do Cruzeiro do Sul e a de um do ângulos da edificação -, que apresentava "elementos arquitetônicos não habituais às casas bandeiristas tradicionais": a planta em L, "enquanto todas as outras casas eram retangulares ou quadrangulares", "a existência de porões" com "aberturas em arcos de tijolos" e mesmo a armadura com tesouras, no madeiramento do telhado, "atípicas para a época, descarregando os esforços nos frechais dos blocos monolíticos de sólida taipa".

Anteriormente, o imóvel fora ainda objeto de análise de Aluísio de Almeida em "Casa-grande e Senzalas de Sorocaba", trabalho publicado no nº 9 da Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, editado em 1949, que a arquiteta arrola na bibliografia e cita no corpo de seu trabalho. O oratório, também mostrado no livro antes mencionado, numa foto feita em 1999 por Carlos Gueller, sempre teve o seu paradeiro conhecido.

Na década de 40, como esclarece a autora, "foi transferido (...) para o sítio Santo Antônio, em São Roque. A medida então adotada pelo IPHAN foi correta. À época, como esclarece Aluísio de Almeida, no texto citado pela pesquisadora, a casa de Baltazar achava-se convertida em tapera e o Sr. Caracante, proprietário da Olaria, fizera, "no salão obtido com a derrubada das paredes internas, depósito de madeira".

Posteriormente, foi transportado para a sede da Superintendência paulista do IPHAN. Havendo sobrevivido a todos esses percalços, é importante que o oratório, cuja localização atual foi confirmada por uma equipe do Museu Histórico Sorocabano, retorne a Sorocaba, a contar do momento em que se tenha um espaço condigno para tanto, seguro e protegido inclusive contra furtos e depredação. De preferência, o futuro prédio do Museu de Arte Sacra, como anunciado ontem em declarações da secretária municipal de Educação e Cultura, Sheila Katzer Bovo, à reportagem.

Fonte: Jornal Cruzeiro do Sul
21/08/2001