NOTÍCIAS
 

Portinari perto dos olhos do povo
Daniela Name

A diretora do MNBA, Heloísa Lustosa, reservou uma sala para painéis do pintor, como "O Galo"


Amada e odiada quase na mesma proporção, a obra de Candido Portinari, o pintor mais popular do Brasil, ganha lugar de honra no Museu Nacional de Belas Artes a partir de hoje. O ministro da Cultura, Francisco Weffort, inaugura a Sala Portinari, espaço permanente para oito painéis do pintor que estavam sendo deteriorados no Monumento Rodoviário, na Serra das Araras.

Os painéis pertenciam ao Ministério dos Transportes, que doou-os ao museu em regime de comodato no ano passado. Trancafiados no monumento desde 1978, estavam muito danificados pela poeira e por resíduos orgânicos, principalmente fezes de passarinho. Restaurados pela equipe do MNBA, vão ocupar a Sala Portinari, criada a partir da junção da Sala Macunaíma com o espaço para as obras de Lygia Clark. Com uma porta de vidro voltada para a Rua México, a sala recupera o apelo popular dos painéis, em que o pintor de Brodósqui se inspira claramente nos muralistas mexicanos, como Diego Rivera.

Portinari pintou os painéis entre 1935 e 1936, durante o governo de Getúlio Vargas, atendendo a uma encomenda da extinta Comissão de Estradas de Rodagem Federais, que deu origem ao DNER. As telas seriam a grande atração do Monumento Rodoviário, inaugurado no dia 12 de outubro de 36, e retratam as várias fases de construção das rodovias brasileiras. Mais nacionalista, impossível. No MNBA, quatro das oito telas foram agrupadas na parede em frente à entrada da Rua México, enquanto as outras quatro foram divididas duas a duas nas paredes laterais. A disposição difere da arrumação original, com uma tela em cada parede do monumento.

— A Fundação Portinari achou que não tinha o menor problema e assim concentramos as telas para a visão de quem está na rua. Reforçamos o blindex da porta de vidro, mas vamos manter a vitrine sempre aberta, para que os passantes da Rua México possam ver as telas e se interessar pela obra de Portinari — diz Heloísa Lustosa, diretora do MNBA, que está fechando com a Fundação Portinari uma grande retrospectiva do pintor, nos moldes da que foi realizada no Masp há cerca de três anos.

Mas o que o público carioca vai ter por enquanto é uma espécie de aperitivo, já que, para a inauguração da Sala Portinari, o museu programou uma pequena exposição paralela do artista. Além de quadros do acervo do MNBA, como o importante “O café” e as telas que pertenciam à Capela Mayrink, a mostra conta com “O galo”, que nunca tinha sido exposta no Rio e pertence ao colecionador Renato Whitaker.

“O galo” é uma tela polêmica, que protagonizou a maior agressão que a obra de Portinari já sofreu. Pintada em 1941, ela participou de uma exposição de arte moderna organizada em 1944 por Juscelino Kubitschek, então prefeito de Belo Horizonte. Na época, a imprensa mineira não entendeu o galo não-realista, com o pescoço retorcido e a cara disforme e fez duras críticas à tela, que ocupava lugar de destaque na mostra. “O galo”, mais tarde apelidada de “O olag” — galo ao contrário — acabou retalhada a gilete junto com mais sete telas.

O episódio acabou fazendo com que JK resolvesse fundar uma escola de arte na capital mineira, para abrir a cabeça dos conterrâneos para o que acreditava ser a genuína arte moderna. E convidou Guignard, um craque, para dirigir a empreitada. Mais tarde, artistas como Frans Weissmann e Amilcar de Castro — o primeiro como professor, o outro como aluno — passariam pelas salas de aula da Escola Guignard de Modernismo.

— Sou mineira, mas não tenho medo de dizer que, naquela época, nossa mentalidade era pouco arejada, porque o transporte era difícil e os mineiros ficavam isolados do resto do país pelas montanhas. A informação demorava mais a chegar — diz Heloísa, que vê na qualidade de Portinari os constantes ataques à sua obra. — Se ele não fosse um excelente pintor, não haveria tanta crítica. O sucesso de Portinari incomodou.

O pintor já provocou a ira do público até fora do Brasil. Nos anos 90, “O café” foi emprestado para uma mostra de arte brasileira no Beaubourg, em Paris. E um visitante mais exaltado não exitou em furar a tela com um objeto redondo, possivelmente uma caneta.

Fonte: Jornal O Globo
24/07/2001