NOTÍCIAS
 
Hélio Oiticica ‘fora de série’
Nani Rubin

No início de 1970, o cineasta Antonio Carlos da Fontoura escreveu um roteiro que tinha tudo a ver com aqueles anos de psicodelismo: “A cangaceira eletrônica”, uma história revisitada de Maria Bonita na qual misturavam-se cangaceiros jogando pingue-pongue em seus momentos de lazer a um auditório de televisão onde Maria Bonita, misto de cantora pop e bandida, atirava numa platéia em delírio, com direito a prêmios como eletrodomésticos e viagens para os feridos. A história, sensacional, tinha um elenco e uma equipe técnica à altura. Para se ter uma idéia, o papel-título seria feito por Gal Costa, vestida num modelito azul e vermelho, puxando para o futurista, criado por Hélio Oiticica. Sim, Hélio Oiticica. Amigo próximo de Fontoura, o artista, um dos ícones da época, aceitou imediatamente o convite para criar figurinos e cenários da fita. O filme nunca foi rodado, mas as 21 pranchas de cenários feitas por ele (as dos figurinos, enviadas para uma costureira, perderam-se, à exceção de uma) foram guardadas durante 30 anos entre os papéis do cineasta. Um caso único na obra de Hélio, elas serão expostas a partir do dia 28 deste mês na galeria Silvia Cintra, em Ipanema, na mostra “Atípicos” (quadro ao lado) .

— Eu tinha acabado de assistir ao show da Gal Costa na Sucata (onde hoje é o Méli Mélo, na Lagoa) e o Hélio tinha feito o cenário, na verdade uma instalação. Gal cantava envolta num véu e as pessoas entravam no teatro por uns penetráveis azuis — conta Fontoura, referindo-se a um dos trabalhos mais conhecidos do artista. — Achei natural convidá-lo para fazer a direção de arte do filme.

O artista entusiasmou-se pelo projeto: todas as pranchas, acompanhadas de anotações e indicações de material e cor, foram criadas em apenas dois dias: 10 e 11 de março de 1970. Elas têm a marca Oiticica, sem dúvida: é possível identificar metaesquemas, relevos espaciais e outras séries de trabalhos. Há penetráveis nos corredores da TV, o cenário da caatinga é pura Tropicália, estandartes que seriam usados por um dos personagens são protótipos de parangolés.

Trinta anos depois, este material todo poderá ser visto devido a uma dessas coincidências típicas da Zona Sul carioca. Fontoura o mostrou aos participantes de uma oficina de roteiro que realiza em seu estúdio, em Ipanema. Um deles, Juliana Cintra, chegou excitada à galeria da mãe, a 200 metros dali, dizendo que descobrira uma raridade para a exposição “Atípicos”, que Silvia Cintra estava organizando. A galerista entusiasmou-se, é claro. Tanto, que não se contentou apenas em incluir o material inédito na mostra, da qual, aliás, tornou-se um carro-chefe. Pediu a Fontoura que a autorizasse a captar recursos para que “A cangaceira eletrônica” saia do papel.

Descrito pelo cineasta como um “science fiction sertanejo, um musical sangrento”, “A cangaceira eletrônica” se passa em Brasília, então uma capital novinha, com menos de uma década de vida.

— Estava em 1969 na cidade, acompanhando a exibição de “Copacabana me engana” (seu primeiro longa-metragem) no festival de cinema, quando tive esta visão: um bando de cangaceiros saía de trás da vegetação do cerrado, muito parecida com a da caatinga, e se dirigia à Praça dos Três Poderes.

No filme, Maria Bonita e seu bando são ídolos pop, de massa, munidos de fuzis e guitarras. Contra eles insurge-se o tenente Abdon, que divide o povo de Brasília com seu repertório de baiões. Fontoura e o co-roteirista Duda Machado previram que as aventuras do bando seriam acompanhadas dia e noite por toda a população, através de câmaras de TV apontadas sempre para eles. Nos cenários de Oiticica, essas câmeras são olhos estroboscópicos. A cangaceira tem por trás um forte esquema publicitário e uma campanha cujo slogan é: “Vale a pena viver perigosamente com Maria Bonita”.


Fonte: Jornal O Globo
11/08/2001