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Arte nipo-brasileira ganha exposição em SP
Maria Hirszman

Não é novidade para ninguém a importância dos artistas japoneses ou descendentes de japoneses para a arte brasileira desde as primeiras décadas do século passado. Mesmo assim, o visitante se surpreenderá com a riqueza e com a diversidade dessa produção ao visitar a mostra Arte Nipo-Brasileira - Momentos, em cartaz na Galeria Euroart/Castelli. Reunindo pinturas e algumas esculturas de quase 30 artistas de diferentes gerações, a exposição pontua vários grandes momentos da arte de tradição nipônica no Brasil, sem privilegiar apenas os nomes consagrados, como Manabu Mabe e Tomie Ohtake. A pintora, aliás, nem está representada na seleção.

A seleção, feita pelo curador João Spinelli, é dividida em quatro grandes momentos, que se entrecruzam em vários momentos durante o percurso. Infelizmente, a seleção é limitada a duas ou três obras por autor. No primeiro bloco, estão os artistas que imigraram para o Brasil na primeira metade do século 20; no segundo, aqueles que viviam na França mas visitaram o País, ajudando a disseminar por aqui as lições da escola de Paris, como Tsugouharu Foujita e Tadashi Kaminagai; em terceiro, estão as obras dos artistas que chegaram ao País depois da 2.ª Guerra Mundial; e, por último, a contribuição dos brasileiros de ascendência nipônica.

Logo na primeira sala estão reunidas as obras de Foujita Kaminagai, Takaoka e Tamaki. De certa forma, os quatro são responsáveis pelo encontro dos japoneses que viviam no Brasil com a arte internacional. Enquanto os dois primeiros trouxeram ao País a efervescência da produção parisiense do período - a influência de Foujita extrapolou em muito a comunidade, chegando a marcar a produção de vários artistas brasileiros e até mestres como Amadeo Modigliani, seu companheiro de ateliê em Paris -, Takaoka e Tamaki estabeleceram a ponte entre São Paulo e Rio, indo à pé de Mogi das Cruzes para o Rio e incorporando-se ao Grupo Bernardelli.

Outro artista essencial desse primeiro núcleo histórico é Tomoo Handa, que estruturou o grupo Seibi. Criado em 1935 e encerrado em 1972, o grupo teve grande significado para os artistas japoneses, estimulando a convivência e o fortalecimento de laços entre colônia. É dele uma bela Lagoa do Abaeté, selecionada por Spinelli para mostrar como ele foi um dos primeiros a revelar um olhar atento para as coisas brasileiras.

A seleção é a mais ampla possível, quer em termos históricos, quer no contraste entre as obras de um mesmo artista. São muitos os destaques, mas talvez as maiores surpresas da exposição fiquem por conta das participações femininas.

É o caso, por exemplo, de Alina Okinaka, esposa de Massao Okinaka, que viveu sempre à sombra do marido mas agora brilha na seleção com uma pintura extremamente singela e delicada, como aquela que retrata duas irmãs brincando. Ou de Mari Yoshimoto, escultora que morreu há cerca de 15 anos e até hoje não foi homenageada com uma exposição que reunisse sua rara produção, que chegou a obter destaque em uma Bienal. Nessa mesma categoria é possível mencionar Lídia Okumura, revelação dos anos 70 e que, segundo Spinelli, foi das primeiras brasileiras a criar ambientes e explorar a potência ilusória das linhas, mas que vive nos EUA há 20 anos, estando fora do circuito brasileiro.

Quase todos os grandes pintores de herança nipônica estão presentes. Não faltam as esculturas abstratas e impressionantemente limpas de Toyota, nem a pintura expressiva de Flavio Shiró (que há quase 50 anos vive em Paris, confirmando o fascínio que a cidade luz sempre exerceu sobre os nipo-brasileiros). O vanguardista Tomoshige Kusuno também está lá, com uma das mais belas obras da mostra: O Retorno no Poente, que retrata numa mistura de acrílica e grafite um caminhão retornando à garagem, no qual a figura parece se perder num lírico jogo abstrato de formas e ângulos sutis.

O professor Spinelli, que há muito é considerado uma espécie de "japonólogo", um especialista em arte japonesa - caminho através do qual descobriu a arte sobre papel, outra de suas paixões - não deixou de lado a jovem geração, estabelecendo diálogos interessantes entre artistas como Roberto Okinaka (que mostra uma releitura bastante particular dos ex-votos) e Handa - ambos interessados por elementos da cultura brasileira -, ou Foujita e Ayao Okamoto. Enquanto Foujita transformava a tela numa espécie de papel, aplicando sobre ela uma mistura secreta até que adquirisse uma textura toda especial, Okamoto cola em suas telas várias camadas de papel até que ela se transforme no próprio elemento. Os dois estão de certa forma resgatando "o caráter eminentemente gráfico e bidimensional predominante na arte japonesa, pelo menos até meados do século 19", conclui o curador.

Arte Nipo-Brasileira - Momentos. De segunda a sábado, das 11 horas às 19 horas. Galeria Euroart / Castelli. Rua Colômbia, 157, tel. 3088-9797. Até 1.º/10. Recomendada.

 

Fonte: Jornal Estadão
11/09/2001