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Obra de Niki integra acervo da Pinacoteca
Maria Hirszman
São Paulo - Niki de Saint Phalle, uma das mais populares
artistas da segunda metade do século 20, que conquistou o
público com suas simpáticas e rechonchudas figuras
femininas, morreu ontem, aos 71 anos, em San Diego. A mudança
para os Estados Unidos, há alguns anos, já foi decorrência
da grave doença respiratória que a acometia, provavelmente
agravada pelos gases e poeira tóxica, liberados durante a
confecção de suas míticas e femininas esculturas.
Por feminino, entenda-se não uma perpetuação
dos estereótipos normalmente associados à mulher,
mas uma necessidade revelada por Niki ao longo de toda a sua carreira
de discutir por meio de sua arte o papel da mulher na sociedade
contemporânea. A bela francesa, filha de banqueiros falidos
durante a grande depressão e que a educaram em Nova York,
começou sua vida profissional como modelo, tendo sido capa
da Life Magazine com apenas 19 anos. Após um casamento fracassado,
ela se envolve com Jean Tinguely, expoente da arte cinética
e do movimento nouveau réalisme, desenvolvendo uma série
de trabalhos contundentes que lhe valeram o epíteto de "terrorista
das artes". Entre seus trabalhos contundentes está Bala,
uma série de pinturas-alvo, cheia de saquinhos de pigmento
que explodiam ao serem atingidos pelos projéteis.
Outra intervenção histórica, feita em parceria
com Tinguely foi a Maior Prostituta do Mundo, uma mulher gigantesca,
de 6 toneladas e 27 metros de largura, instalada em 1966 na entrada
do Moderna Museel de Estocolmo, com um bar e uma bilioteca instalados
no seu interior. Cerca de 2.000 pessoas entram diariamente na escultura,
pelo meio de suas pernas. Segundo a própria artista, esta
é sua Naná mais famosa e o "empreendimento mais
fantástico de sua vida".
Naná, gíria francesa para garota, é o nome
dado por Niki a todas as suas mulheres, como a enorme figura negra
que ela criou especialmente para a exposição que realizou
na Pinacoteca do Estado em 1997 que conquistou definitivamente o
público paulistano. Como diz o então diretor do museu,
Emanoel Araújo, "ela era uma dessas raras pessoas, tão
instintiva e tão poderosa que sempre tocou o público",
acrescentando que por seu caráter lúdico, a mostra
se tornou uma das preferidas das crianças.
Araújo conta que havia programado realizar uma terceira
mostra com obras de Niki (ela também participou de uma exibição
de esculturas ao ar livre no Parque da Luz), mas ela não
ocorreu por problemas de agenda. Além de ter participado
de um momento importante de consolidação do museu,
ela foi de uma extrema generosidade, doando a Fonte das Nanás
para o acervo. Durante anos uma obra similar (com o mesmo título,
mas de maiores dimensões) foi o grande cartão de visitas
do Beaubourg, em Paris, mas a peça desapareceu durante a
reforma do museu parisiense.
A obra de Niki bebe em várias fontes. Ela dialoga com a
arte contagiante de mestres como Gaudí, Matisse, Calder e
Miró, mas não deixa de lado a força do imaginário
popular, as alegorias carnavalescas, ou as míticas figuras
das cartas de tarô que a inspiraram em um de seus maiores
projetos, um parque de esculturas na Itália, comparável
ao Parque Guell - lugar paradisíaco realizado por Gaudí
em Barcelona -, inaugurado em 1998, mas que a artista continuava
construindo pacientemente.
Em comoventes cartas transcritas nas paredes do Pinacoteca, a artista
fazia um depoimento tocante e comovente sobre sua vida, desde o
nascimento enrolada no cordão umbilical (que dizia ter comprometido
sua saúde) até sua defesa incondicional das minorias.
Lá ela expõe, por exemplo, sua difícil relação
com os pais. "Adolescente, recusei meu pai e minha mãe,
como modelos; recusei também sua posição social.
O único lugar que achava confortável e caloroso era
a cozinha, com a empregada negra." Ou a culpa de trocar os
filhos pela arte. "Um dia eu faria uma coisa imperdoável.
A pior coisa de que uma mulher é capaz. Trocaria meus filhos
por meu trabalho. Eu me daria assim uma boa razão para me
sentir culpada."
É essa comovente capacidade de refletir sobre questões
importantes e eternas que tornaram Niki de Saint Phalle uma grande
artista. "A vida não é jamais como se imagina.
Ela nos surpreende, espanta, nos faz rir ou chorar quando menos
se espera", escreveu ela que, com sua arte, tornou a vida bem
mais interessante do que já é.
Fonte: Jornal Estadão
23/05/2002
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