Ingleses voltam ao pop e criam
nova arte
Antonio Gonçalves Filho
A exposição Novos Britânicos,
aberta hoje, reúne pintores da periferia
londrina e ex-tabeliões que pode ser o
prelúdio de um novo período para
a arte.

São Paulo - A associação
é automática e reveladora. Os ingleses,
que deram ao mundo a arte pop há quase
meio século, passam por um momento de crise.
Depois de Damien Hirst e suas vacas conservadas
em vitrines, eles voltam ao passado em busca de
uma saída para toda a salada de prefixos
incorporados à arte contemporânea.
Pós-modernismo, neo-neo qualquer coisa,
vale tudo para tentar definir o que essa meninada
faz ao revisitar as mesmas questões que
intrigavam os artistas pop do Independent Group
(IG) no começo dos anos 50, resumidas numa
única: a obsolescência da arte na
era do consumo desenfreado.
E essa meninada está em São Paulo
na exposição Novos Britânicos,
que o Centro Brasileiro Britânico abre hoje.
São 13 jovens artistas ainda fora do circuito
comercial das galerias, todos eles selecionados
entre os 350 participantes da última Fresh
Fair Air, em 2003. Criada em 2001 para promover
os novos, a feira de arte é tomada como
referência das tendências da arte
inglesa. Anwar Nassar, diretor da empresa promotora
da exposição, Trampolim, selecionou
jovens artistas desconhecidos do público
brasileiro como David Fawcett, Max Taylor, Jane
Goodwin, Debbie Goldsmith, Susan Kay e Hugh Mendes.
Algumas das 58 obras - pinturas, em sua maioria
- foram mostradas na Fresh Fair Air. Outras são
inéditas. Todas estarão à
venda.
Na mostra Novos Britânicos, em raros momentos
é possível associar a atitude dos
novos ingleses à contestação
da velha geração ao estatuto da
arte como expressão de uma personalidade.
A luta é justamente pela retomada dessa
personalidade numa sociedade padronizada e uniformizadora.
Um pintor como Max Taylor, morador da periferia
londrina, fala dessa dificuldade ao retratar edifícios
de arquitetura duvidosa separados da periferia
por cães violentos de raça híbrida.
Hugh Mendes revisita Andy Warhol, ao subverter
manchetes de jornais e criticar a política
do Vaticano sobre o uso de preservativos, mas
o faz de forma assumidamente pessoal e paródica,
mesmo procedimento do engraçado ex-tabelião
David Fawcett, que reduz ao patético o
mundo dos burocratas e executivos.
Algumas dessas pinturas usam tinta industrial
acrílica, transferindo para a tela a impressão
de gag visual que usa material descartável
na era da reciclagem.
Os "novos britânicos" não
se apropriam do pop por puro cinismo, mas para
tentar entender como o pós-modernismo entrou
em colisão com a história da arte.
A rebelião dos artistas do Sensation foi
necessária para que os ingleses redescobrissem
a pintura. Essa volta ao passado pode ser o prelúdio
de um novo período para a arte.
Novos Britânicos. Centro Brasileiro Britânico.
Rua Ferreira de Araújo, 741, Pinheiros.
tel: 3039-0500. 10/19h (sábado, domingo
e feriado, até 16h). Grátis. Até
27/8.
Jornal Estadão
29/07/2004
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