NOTÍCIAS
 
O melhor do Museu Nacional em SP
Maria Hirszman

Mocambos, de Frans Post é um dos destaques internacionais

São Paulo - Pode parecer estranho, mas nunca havia sido mostrada em São Paulo uma seleção tão ampla e significativa do acervo do Museu Nacional de Belas Artes (MNBA) como a que será exibida a partir da noite desta terça-feira na sede do Banco Santos e que reconstitui, por meio de mais de uma centena de pinturas, esculturas e trabalhos em papel, o surgimento e a consolidação de uma imagem da cultura e da identidade brasileira por meio da arte. A mostra Imagem e Identidade: Um Olhar sobre a História cumpre então duas tarefas ao mesmo tempo: contribui para ampliar o debate acerca das origens da modernidade e da arte brasileira no País ao mesmo tempo que amplia o leque de ação daquele que é o mais importante museu brasileiro. Afinal, o MNBA é o grande depositário da história nacional, sendo herdeiro da antiga Academia Imperial.

A tarefa de selecionar o supra-sumo dessa coleção coube a Marcus Lontra, que buscou contemplar um leque amplo de questões, tendo sempre como eixo central a idéia de que o Brasil surge como tema na produção artística nacional bem antes da Semana de Arte Moderna, como nos fizeram acreditar ao longo de todo o século 20. É curioso notar, como esse mito vem sendo destruído por várias exposições e teses ao longo dos últimos anos. Neste momento estão em cartaz em São Paulo quatro exposições que revisitam, de maneira mais ou menos crítica, o movimento modernista, deixando evidente a necessidade de se repensar a historiografia da arte nacional.

Como explica Lontra em seu texto, essa visão de 1922 como marco zero da arte moderna brasileira decorre de um equívoco grave. É "como se fôssemos absolutamente acadêmicos, estaticamente acadêmicos, e um belo dia nos transformássemos, graças à ação de dois ou três artistas e aristocratas, em modernistas empedernidos responsáveis pela tardia entrada do Brasil no século 20". Seu objetivo com essa exposição foi mostrar "como o Brasil foi surgindo pouco a pouco nas telas" e deixar evidente como as primeiras décadas do século 20 - deixadas no limbo por longo tempo - "são extraordinariamente palpitantes".

Da mesma maneira que há evidentemente uma ruptura com os modelos ditos acadêmicos na obra de artistas como Eliseu Visconti e Castagneto (para citar os faróis modernos do século 19 brasileiro) e resquícios de academismo na obra de modernistas do calibre de Tarsila do Amaral, há também um desligamento dos temas clássicos europeus em busca de uma imagem do Brasil e dos brasileiros na pintura de mestres acadêmicos, como na pintura de Almeida Júnior ou até mesmo na célebre A Primeira Missa no Brasil, realizada em 1860 por Vítor Meireles.

Essa tela, que de certa forma abre a exposição em grande estilo, necessita de cuidados especiais e só saiu da sede do MNBA depois de cumpridas várias condições especiais de transporte e conservação e por causa de um acordo que prevê um trabalho de restauro financiado pelo Banco Santos em contrapartida do empréstimo. Outra parceria do banco com o museu foi a publicação de um livro sobre esse rico acervo. A última obra sobre a coleção havia sido feita em 1984.

Pode-se dizer que Imagem e Identidade tem blocos centrais. Uma primeira sala, toda negra, reúne as obras brasileiras do século 19. Lá estão também os artistas viajantes, como Debret e Nicolas Antoine Taunay, que representam a chegada da academia ao País com a missão francesa, em 1816. Em seguida, num enorme corredor de ligação entre os espaços, e que foi ampliado graças ao uso de espelhos, estão alguns destaques internacionais do acervo, assinados por mestres como Frans Post, Rembrandt e Rodin. Há também uma seleção de marinhas de Boudin, o precursor do impressionismo francês. E finalmente um terceiro espaço todo branco, cuja iluminação vem direto das paredes criando um ambiente amplo e leve, no qual há obras mais próximas daquilo que nos acostumamos a ver como modernos.

Esculturas - O núcleo de esculturas, com a belíssima Moema de Rodolfo Bernardelli, também merece destaque (até porque quando se discute modernismo a arte tridimensional, de extrema importância na produção brasileira, parece muitas vezes relegada a um segundo plano). A cenografia, em alguns momentos um tanto quanto dramática, é assinada por Paulo Pederneiras, um dos diretores do Grupo Corpo.

Exercícios de revisão como esse são importantes não apenas para compreender melhor nosso passado cultural como nos ajudam a enxergar melhor o presente. Como confirma Lontra, a crescente preocupação em revisar todo esse processo parece ter uma profunda conexão com o momento histórico, nacional e internacional, que estamos vivendo. O pós-modernismo está morto, a contemporaneidade em crise e, em casa, assistimos pela primeira vez a um operário chegar ao poder. Nada mais natural, afirma ele, que busquemos encontrar como se deu o processo de entrada da imagem do povo brasileiro nas obras de arte criadas por artistas nacionais.

Outra característica interessante da mostra é que ela coloca lado a lado os destaques nacionais e internacionais, permitindo um diálogo maior entre artistas que atuaram no mesmo período (a não ser em casos especiais como Post e o barroco italiano, trazidos por sua importância na coleção do MNBA, mas que fogem um pouco do tema central discutido pela exposição). "A arte brasileira não deve temer isso.


Ela se alimenta disso", diz o curador. Talvez isso reforce a importância da influência européia sobre nossa produção, quer como modelo a ser copiado, quer como algo do qual desejemos nos tornar independentes, em busca de uma identidade única. "A pergunta que se impõe é, afinal: como produzir arte modernista internacional num país periférico?", questiona Lontra, numa pergunta que parece resumir de maneira sucinta o que nos é mostrado nos 1,5 mil metro quadrado de exposição.

Serviço - Imagem e Identidade: Um Olhar sobre a História. De terça a sexta, das 10 horas às 18 horas; sábado, domingo e feriado, das 10 horas às 17 horas. Instituto Cultural Banco Santos. Rua Hungria, 1.100, tel. (11) 3818-95591. Patrocínio: Banco Santos. Até 2/3.


Fonte: Jornal Estadão
12/12/2002