|
O mundo novo de Albert Eckhout
Jotabê Medeiros
São Paulo - Aceite essas ninharias, disse o holandês
Maurício de Nassau ao rei Frederico III da Dinamarca, ao
oferecer-lhe de presente as 26 telas que Albert Eckhout tinha pintado
aqui no Brasil entre 1637 e 1644. A frase está na reprodução
da carta de doação de Nassau ao rei da Dinamarca,
texto que também está em exibição na
Pinacoteca do Estado, na mostra Albert Eckhout Volta ao Brasil -
1644-2002.
As "ninharias" de Eckhout, vistas pela primeira vez em
seu conjunto - uma cessão inédita do reino da Dinamarca
-, compõem talvez um dos mais impressionantes painéis
do confronto da arte de tradição renascentista com
o imaginário do Novo Mundo. A disciplina de uma escola européia
debruçava-se sobre a anarquia do pecado "original",
com resultados artísticos raramente alcançados.
Zanzar por essa exposição, que demorou 359 anos para
se realizar, é um daqueles prazeres raros, que começa
com um choque, prossegue com uma surpresa meio tonta e termina com
um sentimento de iluminação - aquela sensação
de que fomos pinçados pela sorte, pelo privilégio,
pela graça do destino.
São telas enormes (o painel Dança dos Tapuias mede
1 72m por 2,95m), às quais Albert Eckhout não atribuiu
títulos, originalmente. Seu "batismo" foi feito
segundo uma normatização técnica dos curadores
dinamarqueses, seguindo o Thierbuch de Zacharias Wagener.
Esse fato é revelador, o de o pintor não ter concebido
títulos. Pode-se ver que Eckhout debateu-se entre a precisão
do registro (etnográfico, botânico e zoológico)
e a curiosidade filosófica; entre a missão e a intromissão,
o fato e sua interpretação. Armas e ornamentos emolduram
personalidades, mais do que cobaias antropológicas. O estudo
de tipos é bem delimitado. Há oito retratos representando
quatro homens e quatro mulheres de raças diferentes. O Homem
Mulato de Eckhout, espécie de capitão-do-mato, trai
um olhar caravaggesco, só que acrescido de uma angústia
primitiva, indecifrável. É o retrato de um espírito,
além do de uma época e de uma nação.
Mesmo submetendo suas figuras ao padrão renascentista, índias
canibais pintadas como cortesãs européias - exigência
talvez de um suposto arcabouço da "civilidade"
-, Eckhout não cedeu à tentação de retratar
o Novo Mundo como um berço de barbárie. A índia
tapuia com restos humanos - portando um pé no cesto e empunhando
uma mão trágica - não carrega consigo um juízo
moral. Há uma placidez de gestos e uma defesa da "normalidade"
antropofágica que deve ter assombrado o velho espírito
europeu.
Eckhout foi o observador, mas nunca parece se escandalizar com
nada. Também em seus cocos, cabaças finas, castanhas-do-pará,
pimentas, abacaxis e palmeiras, o artista ia além da mera
curiosidade botânica, por assim dizer. A historiadora Elly
de Vries escreveu que, nos oito anos que viveu no Brasil, Eckhout
produziu impressionante acervo de esboços de campo, estudos
preparatórios, desenhos e pinturas de tudo que lhe parecia
"surpreendente, relevante e inédito" nas terras
brasileiras.
Muitas das frutas não eram "inéditas",
não eram nativas, mas importadas. O pintor holandês
mostrava nos detalhes uma nação surgindo da mistura,
da simbiose, uma terra que se moldava às exigências
da colonização brutal e veloz. São retratos
do deslocamento: o colar de pedras preciosas na mulher mameluca
descalça.
Há também três retratos de negros, um Emissário
do Reino do Congo e dois servos de dom Miguel de Castro. Três
negros pintados como estafetas atônitos, com olhos de santos
barrocos. O que Eckhout nos sugere é mais importante do que
o que ele registrou como missão. O grande painel Dança
dos Tapuias é a obra que fecha a exposição,
o grand finale. Na glorificação do movimento e na
celebração da cor, o pintor holandês produziu
talvez a mais épica dessas representações indígenas.
O fato é que nem mesmo Maurício de Nassau achava
aquela doação das obras de Ekchout ao rei da Dinamarca
uma "ninharia", como escreveu. Tanto que, no fim da vida,
vivendo em Cleves, em 1679, mandou carta ao representante dos Países
Baixos pedindo cópias das telas que doou ao rei, alegando
que "Vossa Majestade agora reinante não parece ter nenhuma
estima" por elas. Foi autorizado a fazê-lo, mas nunca
conseguiu seu intento.
Nós, que quase sempre vimos essas obras reproduzidas em
livros didáticos ou catálogos (algumas delas já
estiveram aqui, em bienais ou na prodigiosa mostra O Brasil dos
Viajantes), temos pela primeira vez a chance de encarar o conjunto
das obras-primas de um magnífico pintor visionário.
Não convém marcar touca.
Albert Eckhout Volta ao Brasil 1644 - 2003. De terça a domingo,
das 10 às 18 horas. Pinacoteca do Estado. Praça da
Luz, 2, em São Paulo, tel. (11) 229-9844. Até 30/3.
Patrocínio: Banco Real.
Jornal Estadão
24/01/2003
|