As
múltiplas relações entre arte e tecnologia
Daniela Name

Wandekeybus e Alain Platel, o Carlton Arts começa hoje em
São Paulo. A relação entre arte e tecnologia, tema desta
primeira edição — a partir do ano que vem o Carlton Arts
pode passar a acontecer também no Rio — perpassa todas as
atrações deste megaevento multimídia. Desde o espetáculo
teatral “The far side of the moon”, do diretor canadense
Robert Lepage, até a performance do alemão Karlheinz Stockhausen,
guru da música eletrônica, passando pelo cinema de horror
biológico de David Cronenberg e pelos movimentos da coreógrafa
Renata Melo, única atração brasileira do evento.
—
Escolhemos artistas que têm uma visão bem diferente da relação
entre arte e tecnologia — diz Monique Gardenberg, produtora
do evento. — Renata Melo fala do tempo que envolve a tecnologia
enquanto Lepage parte da corrida espacial americana e soviética
e usa a tecnologia para levar os espectadores numa viagem
mais do que fantástica.
Um
dos principais nomes do teatro internacional, comparado
a Peter Brook, Robert Lepage é a principal atração de hoje
no Carlton Arts. Em sua primeira visita ao Brasil — outro
espetáculo seu, “Agulhas e ópio”, foi apresentado no país
há três anos mas não por ele — o diretor mostra “The far
side of the moon”, sua mais nova criação. Sozinho no palco,
uma das marcas do seu trabalho assim como o uso de efeitos
especiais por vezes de simples execução, Lepage vive Philippe,
um homem que, em meio à competição entre soviéticos e americanos
durante a corrida espacial, tenta encontrar resposta para
uma pergunta: estamos sozinhos?

Antes
de Lepage, na abertura oficial, às 16h30m, o Moinho Eventos,
espaço cultural adaptado especialmente para o Carlton Arts,
abre suas portas para o cinema de David Cronenberg. O cineasta
canadense ocupa o Carlton Arts em dose dupla. Ao mesmo tempo
em que acontece a mostra de cinema e vídeo “O homem e a
máquina”, que reúne obras como “The Electric house”, de
Buster Keaton, “Man with the movie camera”, de Dziga Vertov,
e “Videodrome”, de Cronenberg, os fãs poderão se deliciar
com a exposição “A síndrome Cronenberg: tudo é permitido”,
que focaliza, através de maquetes, desenhos, posteres, cartazes
raros e objetos de cena, a obra do cineasta.
Outras duas atrações ocupam hoje o Moinho: a mostra “Exquisite
Corpse” e a performance da ultravanguardista grife americana
Imitation of Christ. A primeira é uma exposição interativa
em que imagens de partes do corpo humano, clicadas por fotógrafos
renomados, como Mario Testino, Chris Cunninghan e Christopher
Bucklow, poderão ser montadas pelo próprio público, dando
vida assim a um corpo híbrido. Tendo como base para o seu
trabalho uma pesquisa em brechós, lojas de roupas de segunda
mão e do Exército da Salvação, a grife Imitation of Christ
é conhecida por suas performances inusitadas. A primeira
delas, só para se ter uma idéia, foi um velório. Aqui no
Brasil, Matthew Damhave e Tara Subkoff, a dupla de criadores,
estarão apresentando modelitos inéditos, numa performance
que mistura atores e modelos.
A
partir de sexta, outras atrações entram na grade de programação
do evento. A principal delas é a performance de Karlheinz
Stockhausen. De volta ao Brasil, onde esteve se apresentando
em 1988, este compositor alemão que passou pelo dodecafomismo,
pela música proto-eletrônica dos sintetizadores e pelos
computadores elaborou um programa que inclui as peças “Oktophonie”
e “Kontake”. Única atração brasileira, Renata Melo, coreógrafa
responsável por obras como “Bonita Lampião” e “As domésticas”,
apresenta no Carlton Dance um working progress de seu novo
espetáculo, “Passatempo”.
Fonte:
Jornal O Globo