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Onde o Rio é moderno, mas não ‘muderno’
Camila Pohlmann
Uma loja mistura moda e arte de vanguarda numa galeria fuleira de
Laranjeiras. Um ateliê serve sofisticadas delícias italianas em
Santa Teresa. Um vitral num hotel de luxo colore o mar de Copacabana
de amarelo. São modernidades escondidas no Rio e que ainda não chegaram
às butiques de Ipanema, às vitrines dos shoppings nem aos guias
de programação. Um Rio que é moderno mas não ainda não virou muderno.
Graças a Deus.

Intenção dos lugares vanguardistas é surpreender
A artista plástica Elena Pazzuelo, dona da modernésima
Mod (Megaoverdressed), loja de roupas e acessórios instalada desde
abril no improvável bairro das Laranjeiras, ajuda a explicar a sutil
diferença:
— Moderno é tudo o que surpreende pela diferença, pela novidade.
Quando entra na moda, banaliza, fica muderno .
A loja de Elena e de sua sócia Márcia Martins representa estilistas
de São Paulo e Belo Horizonte, como Ronaldo Fraga, Slam e Jum Nakao.
A vitrine é sempre assinada por um artista plástico: a de inverno,
que mistura travesseiros e agulhas, é de Celia Pattacini. Na parede
ao lado, Ni da Costa expõe uma instalação.

— Muita gente diz que deveríamos estar no Fashion Mall ou em Ipanema.
Nada a ver — explica Elena, de cabelos escandalosamente cor-de-laranja,
que já morou em Los Angeles, Barcelona e Jerusalém. —- Adoro estar
em Laranjeiras, longe da praia. É mais urbano.
Bar-brechó leva cybercafé com sushi a Santa Teresa
Outro lugar onde ainda é possível respirar o ar puro da vanguarda
é o recém-inaugurado Favela Hype, em Santa Teresa. A loja, aberta
há três semanas, é um misto de bar, cybercafé, galeria e antiquário.
Da decoração ao cardápio, tudo tem o toque original e incomum da
dona, Kananda Soares, estilista que apurou o olhar pesquisando o
mundo fashion na busca por inspiração para trabalhar como
bordadeira de grifes cariocas como Lenny e Blue Man.
— O Favela é uma idéia nova. Vendemos peças de brechó mas nada aqui
tem cara de coisa da vovozinha. Vendemos comida, mas não somos um
restaurante — explica ela.
Um conceito diferente também é o que faz a fama do 2D3D, também
em Santa Teresa. O ateliê-café não é novo, mas funciona num esquema
tão low-profile que pouca gente conhece.
— Somos modernos, não muderninhos . Não atraímos tribos
mas quem gosta de arte. Fazemos arte também, só que de comer — explica
Raquel Korman, que montou há três anos o café no primeiro andar
da casa que divide com o também artista plástico Zemog.
Na cozinha, que só abre às sextas-feiras, quem manda é ele. O cardápio,
de inspiração italiana, muda a cada mês. No salão, a decoração curiosíssima
está toda à venda.
— Sempre tem gente saindo com uma cadeira ou uma tela debaixo do
braço. O que não dá para levar, o pessoal encomenda — diverte-se
Raquel.
Bolsa de camelô faz sucesso em Nova York

E tem mais: ser moderno não tem nada a ver com preço alto. Na Mod,
uma camisa de Ronaldo Fraga custa R$ 79. Um jeans da Slam, R$ 65.
Pechinchas perto dos preços cobrados por templos mudernos
como a Sy, do Fashion Mall. É aí que entram também as bolsas de
feira, coloridas, de náilon listrado, garimpadas no subúrbio e vendidas
pela camelô Rosângela em Ipanema “para gente que tem o olho bom”,
como a designer Ana Fortes:
— Levei a minha para Nova York e fiz o maior sucesso. Entrei na
Prada e as vendedoras ficaram loucas. Queriam comprar a bolsa. E
imaginar que é tão baratinho, só R$ 6...
Olho bom para perceber o que é moderno tem também a revista americana
GQ, que considerou a vista que se tem através do vitral na fachada
do hotel Marriott, na Avenida Atlântica, uma das coisas mais modernas
do Rio. Do lounge executivo do prédio, o mar assume cores
inesperadas e surpreende em tons de amarelo.
— Surpreender pela diferença é tudo — explica Matheus Rocha Pitta,
artista plástico que instalou na Praça Quinze a sua “Proposta para
uma nova iluminação do Paço”. — É tudo questão de olho. Tem gente
que passa por ali e não dá a mínima para a instalação que está bem
na sua frente.
Mas é difícil não reparar nas caixas pretas que Matheus dispôs no
chão, ao redor do Paço. As peças, com fotografias de refletores,
insinuam uma iluminação nova para o prédio:
— Ser moderno é não ser óbvio, não se comportar como tal. No dia
que tiver uma instalação em cada esquina, isso não vai mais ser
moderno.
Fonte: Jornal O Globo
19/09/2001
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