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Brasília expõe gravuras de Joan Miró
Leonencio Nossa
Famoso pelos murais em edifícios e quadros de grandes proporções,
o artista catalão Joan Miró (1893-1983) se aventurou
numa área em que um ponto pode significar o começo
ou o fim de uma história - ao menos na língua espanhola,
com sinal antes e depois das frases interrogativas.
Sem enxergar dúvidas e diferenças entre a pintura
e a poesia, o artista ilustrou pelo menos 258 livros
de amigos, como o poeta pernambucano João Cabral de
Melo Neto.
Uma parte da aventura de Joan Miró pela gravura, que
o levou a exaustivas releituras dos livros, poderá
ser vista no Centro Cultural da Caixa, em Brasília,
a partir de amanhã e até 16 de dezembro. A mostra
Miró Gravador apresentará cem trabalhos pertencentes
ao acervo do Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia,
de Madri. A galeria que abrigará a exposição foi inaugurada
no início de setembro, com pinturas e gravuras do
artista norueguês Edvard Munch.
Miró é o autor dos cartazes das Olimpíadas de Barcelona,
realizadas quase dez anos após sua morte. O artista
ficou conhecido pela visão humorada, vibração das
cores e liberdade de recriar as imagens do folclore
de Barcelona. Desde a primeira exposição individual
aos 25 anos, o artista fez mais de 400 peças em cerâmica,
2 mil pinturas a óleo e 5 mil desenhos e colagens.
Ligado ao surrelismo no início da carreira, Miró teve
contato com o movimento ao mudar-se para Paris, em
1920. Na cidade, o artista conviveu com nomes da arte
como Andre Breton, Paul Eluard e Louis Aragon. Depois
que encontrou no surrealismo a liberdade de expressão,
Miró passou a experimentar diversos tipos de materiais,
como colagem, aquarela, cerâmica, litografia e guache.
As obras mais populares do artista foram feitas a
partir dos anos 50. O interesse em tornar-se mais
acessível ao público levou Miró a aceitar projetos
monumentais, como os murais em cerâmica do edifício
da Unesco em Paris, (1957-1959), da Universidade de
Harvard (1960) e da Exposição Internacional de Osaka
(1970).
Leão - Cada um tenta domar o leão do Imposto
de Renda com a arma que tem em mãos. Do acervo que
chegou na segunda-feira a Brasília, 57 gravuras foram
repassadas ao governo espanhol, em 1985, por um contribuinte
com dívidas fiscais. É o caso das curiosas litografias
O Delírio do Alfaiate Berinjela, O Delírio
do Alfaiate Amarelo e o O Delírio do Alfaiate
Branco, publicada em tiragem numerada de 30 exemplares
pela editora francesa Maeght, em 1969.
Em Brasília, o público poderá conferir também as gravuras
Mulher e Cachorro diante da Lua (1936), O
Céu do Ferreiro (1964), A Loucura da Pimenta
Vermelha (1975) e O Devorador de Sabres Lunar
(1975). Nas paredes da galeria serão expostas uma
série de cinco águas-fortes, elaboradas em Nova York,
em 1947, e a água-forte Strip-tease (1959),
com 75 números impressos pela Crommelynck e Dutrou,
de Paris.
A última série de gravuras produzida pelo artista
também farão parte da mostra. A Vendedora de Cores
foi criada em 1981, no ateliê que Miró tinha na cidade
espanhola de Palma de Maiorca. Esse trabalho teve
tiragem de 60 exemplares, numa edição da Galeria Maeght
Lelong, também da capital francesa.
Em conversa com o crítico Jacques Dupin, Miró afirmou
que a gravura significava sua expressão superior.
"O despotismo da ferramenta foi vencido progressivamente",
disse o artista. "Posso utilizar um punção ou um barril,
mas também o dedo, a mão, um prego ou uma chave de
fenda velha."
Na visão de Dupin, a dedicação à gravura possibilitava
ao artista uma fuga da solidão determinada pela pintura
e pelo contato com outros artistas, o que também acontecia
no caso da cerâmica. O artista se aventurou na arte
da gravura quando sua pintura já era conhecida no
mercado internacional das artes. O gravador Miró passou
a ser reconhecido em 1954, com a conquista do Grande
Prêmio de Gravura da Bienal de Veneza.
Miró utilizou diversas técnicas da gravura, da água-forte
ao carborundo, que possibilitou a criação de obras
de grande porte. Utilizado pela primeira vez em 1967
por Henri Goetz o carborundo é um procedimento em
que se aplica sobre a chapa pó abrasivo. A técnica
possibilitou a Miró variados efeitos plásticos, que
podem ser conferidos nas gravuras O Dândi (1969),
O Sofredor (1970) e A Praia Preta (1973)
todas expostas no Conjunto Cultural da Caixa. Os interessados
em conferir a mostra Miró Gravador podem ir à Galeria
do Conjunto Cultural da Caixa (SBS - Quadra 4, lotes
3/4, telefone: (61) 414 9450), sempre de terça a domingo,
das 9 às 18 horas. Grupos e escolas devem agendar
a visita antecipadamente.
Fonte: Jornal Estadão
14/11/2001
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